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Saúde em dia

RFI

Entrevistas e reportagens com especialistas sobre as novas pesquisas e descobertas na área da saúde, controle de epidemias e políticas sanitárias.

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Paris, France

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Entrevistas e reportagens com especialistas sobre as novas pesquisas e descobertas na área da saúde, controle de epidemias e políticas sanitárias.

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Galician

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116, Avenue du Président Kennedy Paris, France 1 5640 1212 / 2907


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Por que as mulheres sofrem mais de depressão do que os homens?

2/25/2025
As mulheres têm duas vezes mais depressão do que os homens, segundo dados da Santé Publique France, a agência de saúde pública francesa. A vulnerabilidade feminina à doença está relacionada a causas ambientais e fisiológicas, explica a psiquiatra francesa Lucie Joy. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a depressão atinge cerca de 350 milhões de pessoas no mundo. “As mulheres atravessam períodos complicados, de grandes transformações hormonais, como a gravidez, a menopausa, e o período que precede o aparecimento da primeira menstruação, que também pode ser complicada”, explica a especialista. “Os sintomas depressivos estão associados com frequência a essas mudanças na vida da mulher e isso faz com que algumas depressões graves sejam minimizadas”, afirma a psiquiatra francesa, coautora do livro “A Depressão Feminina: Desmistificar, Compreender e curar”, em tradução livre. A depressão “de verdade” afeta o funcionamento cerebral e impede a ação de alguns neurotransmissores na transmissão das informações essenciais para o equilíbrio cognitivo, fisiológico e emocional, com consequências diversas e individuais. Em casos moderados e graves, o uso de medicamentos é necessário, mas às vezes eles demoram para serem prescritos porque os sintomas femininos são banalizados, aumentando o risco de suicídio. O transtorno disfórico pré-menstrual, por exemplo, que ocorre antes da ovulação, entra nesta categoria. Ele atinge 5% das mulheres e gera sintomas depressivos severos, que podem levar à hospitalização. Fatores ambientais A biologia explica a tendência feminina à depressão, mas o funcionamento orgânico das mulheres não é a única causa da explosão do número de casos. A violência, a discriminação, a desigualdade de gênero e a falta de reconhecimento profissional também são fatores que afetam a saúde mental. “É muito importante conhecer o mecanismo hormonal e fisiológico feminino, mas há também uma combinação de fatores socioculturais que devem ser levados em conta”, destaca a psiquiatra francesa. Segundo a profissional, estudos mostram que as mulheres sofrem mais violência, conjugal ou não e têm um salário em média 24% mais baixo do que os homens. Elas também são responsáveis pela organização familiar e 71% das tarefas domésticas. Esse acúmulo de carga física e mental não contribui para a preservação da saúde mental. “Tudo isso acaba se acumulando, o que explica por que a depressão é bem mais frequente nas mulheres. Esses fatores atuam em conjunto e se potencializam entre si”. A associação da doença à tristeza também é um mito que confunde muitos pacientes. Na realidade, uma das principais características da depressão é a anedonia: a perda da capacidade de sentir prazer em atividades antes consideradas agradáveis. O paciente é invadido por sentimentos negativos. Pode ter também agitação ou lentidão psicomotora, o que cria confusão. “É algo que vai muito além da tristeza, se manifesta de formas muito diferentes em homens e mulheres e em função do período que atravessamos.” Desinformação dificulta vida dos pacientes A psiquiatra lembra que a desinformação em torno da doença dificulta a vida dos pacientes. Ao longo da vida, as mulheres, por exemplo, estão habituadas a ouvir que os sintomas associados à oscilação hormonal, em diferentes fases, são passageiros e lidar com eles “faz parte da vida”. “Só que isso não é possível no caso de uma depressão. “Quando estamos deprimidos mesmo, não podemos controlar. A depressão é uma verdadeira patologia, que deve ser tratada”, salienta. Ela cita como exemplo o suicídio gerado pela depressão pós-parto, como a maior causa de mortalidade materna na França um ano após o nascimento do bebê. A depressão clínica não pode ser tratada apenas com técnicas de relaxamento ou terapia. Ela exige o uso de medicamentos adaptados – às vezes é necessário testar diferentes moléculas, e acompanhamento especializado. Consultar um psiquiatra ou tomar remédios também pode ser considerado como uma fraqueza e...

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Alta de casos de meningites bacterianas muda estratégias de vacinação na França

2/18/2025
Dados do Centro Nacional de Referência dos Meningococos mostram um aumento dos casos de meningites e de outras infecções causadas pela bactéria no país, após o fim das medidas sanitárias adotadas durante a epidemia de Covid-19. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Segundo a agência de saúde francesa Santé Publique France, em 2023 foram notificados 560 casos de meningite meningocócica - um aumento de 72% em relação a 2022. Deste total, 44% estavam relacionados ao meningococo B, 29% ao W e 24% ao Y. Esta alta é preocupante, pois a taxa de mortalidade de uma meningite bacteriana é de 10%, mesmo com um tratamento adaptado. Em média, a cada cinco pacientes, um terá sequelas graves, como explica o clínico-geral Samy Taha, pesquisador do Centro Nacional de Referência dos Meningococos do Instituto Pasteur, em Paris. A doença, transmitida por gotículas e secreções do nariz e da garganta, como tosse, espirro e troca de saliva, ataca as meninges, três membranas que envolvem e protegem o encéfalo, a medula espinhal e outras partes do sistema nervoso central. Ela atinge em uma proporção maior bebês de menos de dois anos, adolescentes e idosos acima de 75 anos. De acordo com o pesquisador francês, o distanciamento social e o uso de máscaras durante a epidemia diminuíram, de forma geral, a circulação dos micróbios, incluindo as bactérias que causam as meningites. Houve também uma queda de 20% nas vacinações, que influenciaram a imunidade de parte da população. Cerca de 10% das pessoas carregam os meningococos nas vias respiratórias, lembra Samy Taha, sem desenvolver infecções, mas podem transmiti-los. Jovens retomaram vida normal mais rápido após a epidemia A alta de casos na França após a pandemia de Covid-19 atinge principalmente adolescentes e se explica por várias razões, como a vida social mais intensa e a circulação entre populações de faixas etárias diferentes. “Há muitos fatores que entram em jogo. Mas é provável que, após o fim das medidas restritivas, as primeiras pessoas que retomaram a vida social, incluindo viagens ou outros grandes eventos, tenham sido os adolescentes e jovens adultos. É por isso que aumento de número de casos atingiu primeiramente essa faixa etária”, diz o pesquisador francês. Segundo ele, após a pandemia de Covid-19, outros sorogrupos de meningococos, antes raros no território francês, se tornaram mais frequentes nessa população. “Essa é a grande novidade. Depois do fim das restrições relacionadas ao Covid, houve um aumento importante das meningites relacionadas ao sorogrupo W e Y, principalmente na faixa etária entre 15 e 25 anos”. Como os dois sorogrupos provocam infecções graves, as autoridades de saúde francesas decidiram modificar o calendário e a recomendação vacinal na França. As novas regras entraram em vigor no dia 1º de janeiro. “O que mudou é que a vacina contra o sorogrupo C foi substituída pela tetravalente, que protege contra os sorogrupos A, C, W e Y. Ela será obrigatória, com uma dose aos seis e aos 12 meses", explica o pesquisador francês. "A Alta Autoridade de Saúde também recomenda um reforço da vacina tetravalente para adolescentes entre 11 e 14 anos, e uma atualização no máximo antes dos 25 anos, com uma dose única. A vacina contra o tipo B, que era apenas recomendada, tornou-se obrigatória para os bebês, em três doses: aos três, cinco e 12 meses”, detalha. Antes, os bebês se vacinavam apenas contra o sorogrupo C, que hoje circula menos na França - apenas oito casos foram registrados em 2022. O sorogrupo B ainda é o mais comum e representa mais de 50% das infecções. Sorogrupos W e Y provocam infecções invasivas mais letais Segundo Samy Taha, os sorogrupos W e Y provocam um número maior de infecções invasivas por meningococos consideradas “atípicas”, que são doenças diferentes das meningites. "Essas infecções, relacionadas aos sorogrupos W e Y, são mais letais e podem atingir o sistema digestivo e as articulações. São formas mais difíceis de serem diagnosticadas e,...

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Nicotina pode "congelar" desenvolvimento de sistemas cerebrais na adolescência, mostra estudo

2/11/2025
Fumar na adolescência pode favorecer o consumo de outras drogas, aumenta o risco de dependência e também afeta circuitos cerebrais que ainda estão em desenvolvimento. Essas são algumas das conclusões de um estudo recente realizado pela neurobiologista americana Lauren Reynolds, no laboratório Plasticidade do Cérebro do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica), situado no 5º distrito de Paris. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris O centro é dirigido pelo pesquisador francês Philippe Faure, que supervisionou as experiências com camundongos expostos à nicotina. Os cientistas realizaram testes eletrofisiológicos, que mapeiam o sistema elétrico cerebral e a atividade dos neurônios, para comparar como a substância agiu nos cérebros dos animais adolescentes e adultos. Como os animais crescem rápido, a transição pôde ser acompanhada em detalhes no laboratório. O objetivo era entender como o circuito dopaminérgico - conhecido como sistema de recompensa, reagia à substância. Durante a experiência, os pesquisadores constataram que a exposição dos camundongos à nicotina na adolescência interrompia o desenvolvimento desse sistema cerebral, que processa informações relacionadas ao prazer, satisfação e motivação, por exemplo. “Foi a partir daí que percebemos que os circuitos da dopamina permaneciam no mesmo estado, como se tivessem sido ‘congelados na adolescência, explicou a pesquisadora americana à RFI. De acordo com o cientista francês Philippe Faure, a primeira etapa da pesquisa consistiu em caracterizar o funcionamento cerebral dos camundongos. “Há uma transformação na adolescência, que envolve várias mudanças, e o estabelecimento de alguns circuitos cerebrais envolvidos na transição para a idade adulta", diz." Se um adolescente for exposto à nicotina, a evolução cerebral será interrompida”, reitera. No final do estudo, a equipe também percebeu que era possível reverter a situação. “São experiências restritas aos camundongos, mas que permitem validar a hipótese que é possível restaurar o funcionamento de alguns circuitos importantes para assegurar a transição para a fase adulta.” Esse é um aspecto importante, ressalta, porque “esses circuitos estão envolvidos nas decisões e na maneira como o indivíduo vai gerenciar sua relação com as drogas”, por exemplo. A pesquisa demonstrou que um adolescente que fumou terá uma propensão maior à dependência química, caso experimente substâncias psicoativas. Ele será também mais sensível à nicotina se retomar o tabagismo na idade adulta. “No sistema nervoso, temos circuitos especializados na avaliação e construção dos nossos comportamentos, que se moldam à noção de recompensa”, diz o pesquisador francês. “A recompensa é tudo aquilo que está relacionado à ideia do que é positivo, e que gera comportamentos que visam obter o que consideramos como positivo.” Esse mecanismo cerebral, explica, está envolvido na motivação, no aprendizado e outros processos cognitivos. Experiências na adolescência são essenciais para o cérebro O sistema de recompensa é complexo e dividido em pelo menos duas grandes partes, que gerenciam a ansiedade e a repetição de certos comportamentos, nocivos ou não. O uso da nicotina atrapalha o equilíbrio entre esses dois sistemas, que são diferentes em adultos e adolescentes, mostrou o estudo, A maneira como eles evoluem durante essa fase também determinará o comportamento individual. “O circuito dopaminérgico é formado por pequenos núcleos localizados na parte profunda do cérebro e do tronco cerebral, que chamamos de neuromoduladores. Eles se caracterizam pelo envio de projeções e sinais para praticamente todo o cérebro”, explica o cientista francês. Esse mecanismo, se afetado pela nicotina, também vai impactar outras regiões cerebrais, como a amígdala, no lobo temporal, e o núcleo accumbens, o “centro do prazer”, no córtex pré-frontal, duas estruturas envolvidas na tomada de decisões e na gestão do medo, por exemplo. Os circuitos que gerenciam a dopamina, diz Philippe...

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Cientistas europeus desenvolvem plataforma para melhorar saúde mental dos adolescentes

2/4/2025
Como antecipar e prevenir futuros casos de depressão ou ansiedade que podem afetar a saúde mental dos adolescentes? Este é o objetivo do estudo IMPROVA (Intervention Enhancing Mental Health in Adolescents), financiado pela União Europeia e criado por um grupo de cientistas europeus. A plataforma de saúde digital visa identificar fatores que influenciam o bem-estar dos jovens e detectar perfis propensos a desenvolver doenças mentais. A ferramenta está em fase de testes desde setembro e o projeto é liderado pela pesquisadora francesa Maria Melchior, do Instituto Pierre-Louis de Epidemiologia e Saúde Pública, em Paris. O objetivo é que, dentro de alguns meses, a plataforma possa ser acessada gratuitamente pelo computador, celular e tablet. Segundo ela, a equipe recrutará cerca de 12 mil alunos do Ensino Fundamental e Médio em escolas na França, Espanha, Romênia e Alemanha para testar o dispositivo. Os participantes deverão responder a um questionário sobre sua saúde mental no início e no fim do ano letivo. Um outro grupo sem acesso à plataforma também terá acesso às questões, para que os cientistas possam comparar as respostas. O modelo, utilizado por profissionais da saúde, analisa cinco "dimensões psicológicas", que englobam problemas emocionais, nível de isolamento, agressividade, hiperatividade, falta de atenção e concentração, além de empatia. A ferramenta traz ainda conteúdos que esclarecem dúvidas sobre a saúde mental e propõe exercícios que ajudam na gestão do estresse ou do sono - fatores conhecidos pela influência negativa no psiquismo dos jovens. Segundo a pesquisadora, estimativas mostram que os adolescentes passam em média 10 horas por dia no celular. Esse isolamento virtual se explica pela diminuição do contato com os amigos na “vida real”, típico da nova geração hiperconectada. Uma das consequências é que muitos jovens acabam abandonando atividades esportivas ou artísticas, antes consideradas prazerosas, o que contribui para a solidão. Maria Belchior explica que a plataforma não visa obter um diagnóstico, mas dar uma visão global do bem-estar do usuário e apontar possíveis riscos para a saúde mental. “Só o fato de fazer perguntas e querer saber como eles vão já vai ajudá-los, nem que seja um pouco, a desbloquear a expressão de certas emoções”, explicou a epidemiologista francesa à RFI. Essa conscientização pode incitar alguns dos jovens a buscar ajuda, dentro escola ou fora dela, o que concretamente já ocorreu, explica. Para isso, linhas telefônicas específicas e endereços úteis também podem ser consultadas na plataforma. O projeto também propõe um site paralelo para professores e pais, que visa difundir informações sobre os problemas psicológicos mais comuns vividos pelos adolescentes e os fatores de risco, como a exposição ao bullying e as dificuldades de relacionamento, por exemplo. “A ideia é informar melhor os pais e as pessoas que trabalham com os adolescentes sobre a saúde mental, e tentar mudar um pouco o ambiente em que eles vivem. O objetivo é sensibilizar os adultos sobre essas questões, para que eles saibam o que pode ser feito se o adolescente não vai bem”, diz a epidemiologista francesa. Diversidade O recrutamento dos adolescentes que participam da fase piloto na França foi feito em parceria com o Ministério da Educação e da Saúde. Em seguida, o projeto foi implantado nas escolas, em função do interessa das secretarias de Educação das regiões francesas. As cidades situadas na periferia de Paris, por exemplo, rapidamente demonstraram interesse pela iniciativa. Para selecionar as escolas participantes, a pesquisadora francesa utilizou como principal critério a diversidade. A preferência foi dada para estabelecimentos situados fora da capital, com alunos de diferentes classes e origens sociais. Maria Belchior destaca que as escolas em Paris não são apropriadas para o estudo porque são exemplos de “segregação”. De acordo com ela, existem dois tipos de estabelecimento: aqueles...

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Oncologistas franceses alertam para alta de casos de câncer em jovens adultos: "é uma corrida contra o tempo"

1/28/2025
Os casos de câncer entre os jovens de 20 a 40 anos vêm crescendo de maneira contínua nos últimos 30 anos, segundo dados apresentados pelo Instituto francês Gustave Roussy, que busca ampliar sua atuação em pesquisa, prevenção e tratamento. O estabelecimento público, situado em Villejuif, nos arredores de Paris, é um dos maiores centros de luta de combate ao câncer do mundo e considerado uma referência em testes de novos medicamentos e terapias. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Os cânceres do intestino, pâncreas e rins, por exemplo, se tornaram mais comuns nesta faixa etária, o que representa "um verdadeiro desafio para os cientistas", explicou à RFI o oncologista Fabrice Barlesi, diretor-geral do Instituto Gustave Roussy. “Não entendemos exatamente o porquê deste aumento, mas há pistas. Alguns estudos mostram que pode haver uma relação entre o consumo de ultraprocessados e o câncer. Mas isso não significa que haja necessariamente uma causalidade, ou seja, uma relação de causa e efeito.” O aumento impressiona os cientistas, afirma, e as perspectivas exigem ação imediata. Uma pesquisa internacional recente divulgada na revista científica British Medical Journal revelou que, entre 1990 e 2019, houve um aumento de 79,1% de certos tipos de câncer em pessoas com menos de 50 anos, em todo o mundo. As conclusões de outro estudo, divulgado em dezembro de 2024 pela revista Lancet Oncology, prevêem uma alta de 12% de novos diagnósticos e mortes causadas pela doença nesta faixa etária, entre 2022 e 2050. O fato é que, estatisticamente, a curva estatística que traduz o aumento dos casos entre jovens não se estabiliza ou registra queda nas últimas três décadas. Na prática, isso indica que, independentemente do método utilizado para analisar os dados, a alta dos cânceres nessa população parece ser uma realidade incontestável, explicou Fabrice André, diretor de pesquisa do instituto francês. De acordo com ele, ainda serão necessários muitos estudos para confirmar cientificamente as hipóteses que explicariam o aumento do número de casos. "Isso pode levar vários anos”, observa. Confirmar as hipóteses ambientais que estariam por trás do adoecimento dos jovens adultos também é fundamental para adotar medidas de prevenção e evitar a alta de certos tipos de cânceres nas próximas gerações. Com provas científicas, os Estados, com o tempo, seriam assim obrigados a adotar legislações mais protetoras. Foi o que aconteceu com o cigarro, um agente cancerígeno que, há 25 anos, era consumido sem moderação no espaço público. Apesar do lobby da indústria do tabaco, os governos com o passar das décadas não tiveram outra escolha, a não ser agir. “Hoje nós não podemos dizer que conhecemos, de maneira científica, as causas dos cânceres nos mais jovens. Por isso é importante lançar estudos e coortes (NR: grupos de pacientes), para termos mais dados precisos e demonstrar, de maneira científica, com provas, qual é a causa desse aumento”, acrescenta Fabrice André. “Mas o fato é que tenho medo pelos meus filhos quando eles terão 30 anos”, alerta. A frase, que chamou a atenção dos jornalistas presentes na coletiva de imprensa organizada pelo instituto na capital francesa, é mais um "choque de realidade" do que necessariamente alarmista, explicou o oncologista. “Há duas causas possíveis para a explosão desses cânceres. Uma delas é a exposição mais precoce a fatores de risco para a doença. Por exemplo, acreditamos que a inflamação crônica pode favorecê-la. Desta forma, estar exposto de maneira mais precoce a uma inflamação poderia provocar um câncer”, diz. “A segunda causa seria a exposição a novos fatores de risco. Neste caso, uma das hipóteses é o consumo de alimentos ultraprocessados, ou a exposição do jovem durante sua vida a agentes cancerígenos, por exemplo”, explica. “Outra hipótese é a obesidade. As transformações metabólicas e a inflamação que ela provoca podem estar associadas ao câncer. Mas não temos provas científicas”, reitera. “O papel da...

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Epidemia de solidão: idosos franceses sofrem com isolamento social

1/21/2025
A França celebra nesta quinta-feira (23) a Jornada Mundial da Solidão. Segundo dados publicados em 2022 pelo instituto de pesquisa Ifop, 19% dos franceses se sentem sozinhos. O fenômeno atinge todas as faixas etárias e categorias sociais, mas a preocupação é ainda maior em relação aos mais idosos. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris De acordo com um estudo do Insee (Instituto Nacional de Estatística e Estudos Econômicos da França), publicado em 2021, cerca de um milhão e meio de franceses com mais de 75 anos sofrem de isolamento social severo ou moderado. Este número corresponde a 12% da população nessa faixa etária. O avanço da idade leva à diminuição dos vínculos sociais, principalmente após a aposentadoria. Com o tempo, o círculo de amigos também tende a ficar mais restrito e a família nem sempre está por perto. Além disso, os problemas de saúde são mais comuns e podem afetar a autonomia em graus diferentes. Como prevenir a solidão que de uma forma ou outra caracteriza a terceira idade? Nos últimos anos, o governo francês e a iniciativa privada vêm se mobilizando para propor soluções subsidiadas que visam melhorar a saúde emocional dos idosos. Um exemplo é o “Anjos da Guarda", projeto gerenciado pelo psicogeriatra francês François Santo. O serviço é proposto pela empresa francesa de teleassistência Tunstall Vitaris, gigante do setor no país. A equipe do psicólogo é responsável pela gestão de cerca de 2,5 milhões telefonemas por ano. O objetivo diz, é "levar conforto aos idosos" e ajudá-los a lidar com a solidão e as emoções negativas que decorrem do isolamento. “Como podemos prevenir a solidão? Na minha opinião, a solidão vivida pelos idosos não é uma questão apenas de envelhecimento, mas também de juventude. É preciso aprender a envelhecer e isso começa cedo: cuidando de si mesmo, aprendendo a viver com suas neuroses e trabalhando suas próprias questões de dependência afetiva”, resume. De acordo com ele, é importante "aceitar sua própria vulnerabilidade" para, na terceira idade, “lidar mais facilmente com as perdas”. Esse preparo deve ser feito com antecedência, frisa o especialista francês, citando uma frase do general francês Charles de Gaulle. “De Gaulle dizia: o envelhecimento é um naufrágio. Com frequência associamos o envelhecimento a essa noção, mas isso não é verdade, na minha opinião. Há, de fato, situações envolvendo pessoas idosas que são muito tristes, mas na maior parte do tempo, isso não é uma fatalidade", defende. "A velhice é algo que se prepara. Envelhecer é bonito, amadurecer também, e aceitar sua própria vulnerabilidade faz parte. Muitas pessoas vivem bem o envelhecimento e a questão da solidão”. Para o psicólogo francês, “a problemática do envelhecimento envolve uma sucessão de perdas. Aos 40 anos, se você perde um trabalho, pode achar outro. Mas se você está aposentado e não tem mais vida profissional, isso é uma verdadeira perda. Quando você está casado há décadas e de repente se torna viúvo ou viúva, isso também é uma perda irremediável”. Superando limitações Essa “sucessão de perdas”, diz o psicólogo francês, afeta a autoestima. Os telefonemas da equipe, uma vez por semana, buscam então "levar um pouco de conforto" para os idosos que se sentem isolados. O objetivo é criar um vínculo social e antecipar possíveis problemas, como a perda total de autonomia. Ele lembra que os atendentes do "Anjos da Guarda" são formados para antecipar situações de risco. Há idosos, por exemplo, que desenvolveram problemas cognitivos, como o Mal de Alzheimer, mas ainda continuam sozinhos em casa. Eles correspondem a 40% dos telefonemas tratados pela equipe. Essa situação pode durar vários anos até a obtenção de uma vaga nos chamados Epahds, os centros para idosos franceses, que podem ser públicos ou privados. A escolha de manter os mais velhos em casa ou não também dependerá das famílias e do custo envolvido. A mensalidade dos centros custa em média € 2000, o equivalente a cerca de R$ 12.500, mas esse valor...

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Ao invés de “diabolizar redes sociais”, pedopsiquiatra francesa defende diálogo e regulação

1/14/2025
Vários países, entre eles a França, vêm adotando medidas para controlar o acesso às redes sociais e proteger crianças e adolescentes, que podem ser induzidos a práticas violentas e até mesmo ao suicídio. Em busca de mais audiência, as redes utilizam algoritmos que adaptam o conteúdo em função dos dados e interesses do usuário. Mas esse efeito, conhecido como "filtro bolha", induz falsas percepções e reforça as próprias crenças e opiniões, afetando a capacidade de questionamento. O algoritmo do TikTok é apontado como um dos mais nocivos, mas não é o único. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Em julho do ano passado, o governo francês promulgou uma lei que estipula a “maioridade digital” aos 15 anos, estabelecendo assim idade mínima autorizada para se inscrever nas redes. No Brasil e na França, celulares também estão sendo banidos das escolas. Neste contexto, como proteger crianças e adolescentes? Proibir o acesso adianta? A RFI conversou com a professora Catherine Jousselme, uma das maiores pedopsiquiatras francesas, autora de diversos livros e estudos sobre a questão e que, ao longo de sua carreira, dirigiu vários centros infanto-juvenis no país. Para ela, não existe uma só solução, mas preconizações que envolvem a escola, os pais, governos e os profissionais da saúde. “Vivemos em um mundo onde deveríamos tomar consciência do perigo de certas práticas, não só para a saúde, mas também para o psiquismo dos jovens. São necessários filtros que funcionem nas redes sociais e restrições em função da idade, o que não é o caso”, alerta. Segundo a psiquiatra francesa, novos dados publicados no ano passado mostram que cerca de 45% de adolescentes entre 11 e 12 anos utilizam TikTok com frequência. Há vários riscos envolvidos, observa Catherine Jousselme. Os distúrbios do sono, por exemplo, são algumas das consequências da exposição excessiva às telas, principalmente de noite. O uso do celular antes de dormir deixa o cérebro em alerta e aumenta a tentação do scrolling. Dormir pouco também aumenta a vontade de comer mais açúcar e desmotiva o adolescente a praticar uma atividade física, considerada como um dos elementos essenciais para o equilíbrio emocional. “Essas ferramentas causam dependência. Sabemos que nosso cérebro tem um circuito de tratamento da imagem que é bem mais rápido do que o circuito que gerencia a linguagem e a reflexão”, explica. Para gerar essa dependência, redes sociais como TikTok se baseiam em um sistema algorítmico próprio e tóxico, com uso inapropriado dos dados, ressalta. Essa ausência de filtros faz com que imagens de extrema violência estejam ao alcance dos jovens de maneira ininterrupta. Alguns vídeos trazem até mesmo o “passo a passo” de como se suicidar, exemplifica Catherine Jousselme, “o que é, obviamente, gravíssimo”. Infelizmente, em boa parte dos casos, os pais ignoram que esses vídeos estejam acessíveis e tenham sido consultados pelos filhos. Por curiosidade ou impulso, ou sugestão de amigos, os adolescentes muitas vezes não resistem a clicar em imagens, que geram, nas palavras da psiquiatra, “sideração psíquica”. Em adolescentes vulneráveis, haverá uma tendência a buscar conteúdos de extrema violência, que criem uma identificação com seus próprios traumatismos. Essa exposição frequente à crueldade sem limites compromete o desenvolvimento da empatia, explica a pedopsiquiatra, e desencadeia comportamentos violentos. Diálogo e regulação O consumo ininterrupto do conteúdo gerado pelas redes torna os jovens presas fáceis. Esse risco cresce na adolescência, um período marcado por transformações e incertezas. “Se você assiste a vídeos sem parar durante duas ou três horas, seu cérebro não ativará seu sistema de reflexão. Ele estará o tempo todo focado no imediatismo provocado pelos circuitos que gerenciam o tratamento da imagem, que se ativará de forma permanente, sem nenhum senso crítico”, afirma a especialista. “O jovem pode ser influenciado, se fechar, não conversar mais com seus pais sobre...

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Por que remédios contra a dor não surtem o mesmo efeito em algumas pessoas?

12/24/2024
Os opioides são analgésicos potentes, usados para tratar dores pontuais ou crônicas. A equipe do pesquisador francês Cyril Rivat, do Instituto de Neurociências, em Montpellier, no sul da França, busca entender por que moléculas como a morfina pioram a dor de certos pacientes ou não fazem efeito. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Os estudos do neurocientista francês são feitos em parceria com pesquisadores do Inserm (Instituto de Pesquisas Médicas da França), CNRS (Centro Nacional de Pesquisas Científicas) e a empresa Biodol Therapeutics. A startup, que tem um contrato de colaboração com a equipe francesa, visa criar um medicamento experimental contra esses efeitos adversos. Eles também estão presentes nas dores neuropáticas, que surgem após lesões nos nervos, medula ou cérebro. A expectativa é que o futuro remédio, ao bloquear um receptor cerebral chamado FLT3, possa controlar as reações indesejadas que decorrem do uso da morfina. Os testes clínicos da fase 1 com humanos devem começar em 2025 na França. "A Biodol Therapeutics obteve um financiamento em 2024 para lançar a primeira fase dos testes clínicos com humanos. A inclusão dos participantes começou em dezembro, com voluntários", explica o cientista francês. De acordo com o especialista, "o primeiro objetivo é avaliar os possíveis efeitos tóxicos de um composto químico que terá como alvo o receptor FLT3". A primeira fase, diz Cyril Rivat, deve terminar em 2025. "Se tudo correr bem, vamos organizar a fase 2, que deverá analisar os efeitos da substância na dor neuropática crônica." Mecanismos A resistência aos efeitos da morfina está relacionada a vários mecanismos neurobiológicos complexos, que ainda estão sendo identificados pela Ciência e estão relacionados ao receptor cerebral onde age a morfina. “Estamos avançando, mas ainda há questões em aberto”, diz o cientista. Diversos estudos mostram que a estimulação frequente do receptor FLT3 acaba diminuindo o efeito da morfina, que fica restrita à parte interna da membrana cerebral. Esse mecanismo altera sua função analgésica, que é eliminar a dor. A morfina também pode, em alguns casos, provocar um aumento da sensação dolorosa, como demonstrou um estudo recente do pesquisador francês, publicado na revista Nature Communications. “Pode ser totalmente paradoxal, mas podemos explicar esse fenômeno do ponto de vista neurobiológico. Trata-se de um mecanismo de adaptação do organismo, que tenta se defender contra o uso dos opioides", detalha. O neurocientista francês lembra que nem todas as pessoas estão propensas a essas reações adversas. "A morfina continua sendo uma das melhores moléculas que existem no tratamento contra a dor. Há usuários que se tornam dependentes químicos, como revela a crise dos opioides nos Estados Unidos, mas a molécula continua sendo uma referência e demonstra uma grande eficácia”. Dores neuropáticas Em suas pesquisas sobre o tema, que tiveram início em 2018, o cientista francês descobriu, em testes celulares no laboratório e com animais, que esses dois efeitos após o uso da morfina – aumento da dor e resistência ao efeito analgésico - também eram observados nos pacientes com dores neuropáticas. O cientista também constatou que, ao bloquear o receptor FLT3, a morfina voltava a fazer efeito. Nos animais, o resultado foi ainda mais impressionante. “Conseguíamos bloquear a resistência, o aumento da dor e melhorávamos os efeitos analgésicos da morfina.” Os mecanismos do receptor FLT3 nas dores neuropáticas também são alvo de uma colaboração entre o pesquisador francês e o cientista brasileiro Thiago Cunha, da Faculdade de Medicina de Ribeirão Preto. "O professor Thiago Cunha também é um especialista das dores neuropáticas, mas estuda as interações que chamamos de neuro-imunes, entre o sistema nervoso e o sistema imunológico", explica. "O receptor FLT3 é ativado por um neuromediador produzido pelas células imunitárias. Estamos tentando entender melhor essa interação existente entre esse...

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Infectologista francês fala sobre prós e contras de antirretroviral semestral contra HIV

12/17/2024
O HIV continua um desafio para a saúde pública. Em 2022, segundo a OMS (Organização Mundial da Saúde), 39 milhões de pessoas conviviam com o vírus em todo o mundo. Mais de dois terços dos pacientes estão na África. Embora nenhum medicamento seja ainda capaz de eliminar completamente o HIV do organismo, um novo tratamento inovador, o lenacapavir, baseado em duas injeções anuais, é considerado extremamente promissor. Mas o custo do medicamento - cerca de US$ 40.000 - ainda continua elevado e as indicações de uso são específicas. O Sulenca, nome comercial do antirretroviral, é um inibidor da função do capsídeo, a capa da proteína que envolve o vírus HIV-1. Ele atua nos estágios iniciais e finais do ciclo de replicação. Seu mecanismo de ação permite alcançar e bloquear vírus que se tornaram multirresistentes em pacientes soropositivos e por isso ele é indicado como tratamento complementar, ou seja, associado a outros comprimidos. Nos estudos, o lenacapavir, encontrado nas formas oral e injetável, também demonstrou uma eficácia de quase 100% na prevenção contra a contaminação no caso de uma exposição ao HIV. O laboratório Gilead, que fabrica a molécula, assinou um acordo com seis fabricantes que permite a produção genérica do medicamento e o tornará acessível em 120 países. O Brasil ficou de fora dessa lista e um grupo de organizações pediu no último dia 1º de dezembro, Dia Mundial de Combate à Aids, medidas para acelerar o acesso. Fim da epidemia? A OMS, o Fundo Global e o UNAIDS estabeleceram 2030 como meta para o fim da epidemia. O lenacapavir pode ajudar a atingir esse objetivo? Segundo o infectologista francês Jade Ghosn, ainda existem obstáculos para disseminar o uso da nova molécula. Ghosn é coordenador regional da luta contra o HIV e as Doenças Sexualmente Transmissíveis da região Île de France, onde está situada Paris. Segundo ele, a molécula tem duas principais vantagens. "A primeira é que o lenacapavir vem de uma nova classe de medicamentos", explica. "A segunda é que ele foi formulado para ser injetado por via subcutânea, ou seja, da mesma forma que a insulina, heparina, ou os anticoagulantes, e é administrado a cada seis meses.” Atualmente, os comprimidos para tratar o HIV devem ser tomados diariamente, o que exige disciplina – as pílulas não devem ser consumidas em jejum, por exemplo. No cotidiano, essa organização gera uma sobrecarga mental elevada. "O paciente também deve andar com a caixa de remédios na bolsa", lembra o infectologista, o que pode colocá-lo em situações constrangedoras, ou o "obriga", socialmente, a ter que expor seu problema de saúde, explica. “Os remédios fazem o paciente lembrar diariamente que têm a doença, eles comentam. Em termos de carga mental, não ter que pensar nisso por seis meses é um verdadeiro alívio e uma melhoria real na qualidade de vida das pessoas”, explicou Ghosn. Mas, apesar de todas as vantagens e de ser uma pista para avanços concretos na gestão cotidiana da doença, o lenacapavir custa caro e ainda é um tratamento complementar, reitera. Para controlar a carga viral, ou torná-la indetectável, o paciente soropositivo deve utilizar uma combinação de medicamentos, já que o vírus sofre mutações muito rapidamente. “Isso significa que, hoje, se você quiser utilizar o lenacapavir no tratamento, ele deverá estar necessariamente associado a outros comprimidos. O paciente então perde o benefício do tratamento injetável. Se no futuro as pesquisas identificarem uma molécula associada eficaz que também possa ser administrada a cada seis meses, aí teremos realmente o benefício de um tratamento 100% injetável”, analisa. Acesso gratuito De acordo com o infectologista francês, a Agência Nacional de Pesquisa sobre Aids e Hepatites Virais está realizando uma série de estudos para avaliar como a nova droga poderá ser integrada aos sistemas de saúde dos diferentes países, incluindo a França. No país, desde 2013, todos os soropositivos têm acesso gratuito aos tratamentos,...

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Mães falam sobre desafio da prematuridade após UTI; pediatra lembra cuidados essenciais

12/10/2024
A prematuridade é uma das maiores causas de mortalidade infantil no Brasil e atinge famílias em todo o mundo. Quando ela é extrema, requer cuidados e gera desafios que demandam a dedicação constante dos pais. Bebês que nascem antes do tempo exigem cuidados essenciais para o seu desenvolvimento futuro, lembra o pediatra Renato Kfouri, presidente do Departamento de Imunizações da Sociedade Brasileira de Pediatria. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Há 12 anos, a vida da jornalista brasileira Fabiana Bacchni, que vive em Toronto, no Canadá, e já era mãe de um menino, tomou um rumo inesperado. Grávida de gêmeos após uma fertilização in vitro, ela descobriu que um dos bebês tinha um problema cardíaco. Michael não sobreviveu e o parto de Fabiana acabou ocorrendo na 26ª semana de gestação. A outra criança, Gabriel, hoje com 12 anos, nasceu com 900 gramas e foi internada na UTI - o peso considerado normal de um recém-nascido que nasce de nove meses é entre 2,5 e 4 quilos. “Foi uma jornada de 146 dias de UTI neonatal. O Gabriel ficou com ventilação mecânica por sete semanas”, conta. No período em que esteve internado, o bebê teve várias complicações, mas Fabiana manteve o otimismo. “Eu tinha colocado na minha cabeça que, deixando a UTI, minha vida voltaria ao normal. Meu objetivo era tirar o Gabi dali.” Fabiana teve a oportunidade de participar de um estudo científico no hospital, onde tinha aulas diárias sobre a prematuridade. Ela e o pai também se envolveram ativamente nos cuidados com o filho, e participavam até mesmo das decisões tomadas pela equipe médica. Quando Gabriel teve alta, Fabiana soube que o filho teria que usar o oxigênio em casa. “Eu chorei muito, não queria levar o oxigênio para casa, só queria que nossa vida voltasse ao normal. A médica olhou para mim e disse: esse vai ser o seu novo normal”, lembra, emocionada. Alguns meses depois, o menino foi diagnosticado com paralisia cerebral e o mundo de Fabiana caiu. “Fui em médicos no Brasil, fui para os EUA, vi todos os especialistas no Canadá, procurei células-tronco na Tailândia”, descreve. “Mas aí tem um dia que você para e diz: não tem nada errado com meu filho, não tenho que tentar consertá-lo. Tenho que tentar dar uma qualidade de vida boa para ele. Isso mudou a maneira como eu passei a enxergar a situação, e como eu criaria um filho com deficiência”. Envolvendo as famílias nos cuidados com o bebê Gabriel é tetraplégico e, para Fabiana, adaptar-se à nova situação exigiu aprendizado, dedicação e resiliência. Mas as dificuldades enfrentadas nos primeiros anos de vida do filho deram a ela força para se dedicar ao trabalho que hoje ajuda prematuros e suas famílias em todo o mundo. A brasileira é diretora da Canadian Premature Babies Foundation (Fundação canadense de bebês prematuros), uma organização que dissemina, através de uma rede de cooperação internacional, ações para sensibilizar sobre o cuidado neonatal. O objetivo é promover um maior envolvimento dos pais e da família com o recém-nascido, desde o nascimento. “Os estudos mostram que, desta maneira, os bebês vivenciam melhor a prematuridade. Vão para casa mais rápido, têm mais sucesso na amamentação, possibilidade menor de ter retinopatia da prematuridade. Há também vários benefícios para os pais: menos estresse, menos ansiedade. A saúde mental deles é melhor quando estão envolvidos nos cuidados com o bebê”. Guerreiro de Marte Martin, o primeiro filho da carioca Tatiana Marques, hoje tem 7 anos e pesava apenas um quilo quando nasceu. O parto aconteceu após uma gestação de 28 semanas. “Martin significa guerreiro de Marte. Ele veio honrando esse nome desde que nasceu”, conta Tatiana. “Ficamos três meses com ele na UTI. Era para o Martin ter nascido no final de dezembro, mas ele veio ao mundo dia 2 de outubro. Ele só tinha um quilo, e com a perda inicial caiu para 900 gramas”, lembra. “O Martin não teve uma intercorrência grave durante a internação, mas por pouco não teve que passar por uma cirurgia do...

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Como os hormônios influenciam o sono das mulheres ao longo da vida?

12/3/2024
Diversos estudos buscam entender como as variações hormonais e o meio-ambiente influenciam o sono das mulheres em diferentes etapas da vida. Mas ainda faltam dados para identificar com precisão todos os fatores que explicariam por que as pacientes acumulam mais noites maldormidas do que os homens. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris De acordo com a Santé Publique France, a agência de saúde francesa, entre 15 e 20% da população do país sofre de insônia e mais mulheres do que homens declararam ter o sintoma. As mesmas conclusões foram divulgadas em um estudo publicado em março deste ano pelo Instituto Nacional do Sono e da Vigilância. As diferenças no padrão do sono de homens e mulheres foi um dos destaques de um congresso que reuniu pesquisadores franceses e de vários países no final de novembro em Lille, no norte da França. O evento foi organizado pela Sociedade Francesa de Pesquisa e Medicina do Sono (SFRMS, na sigla em francês) e o Grupo Sono da Sociedade de Pneumologia em Língua Francesa (SPLF). A neurologista Isabelle Lambert, que participou da palestra sobre o tema, dirige o centro dedicado aos distúrbios do sono no hospital universitário de Marselha, no sul da França. De acordo com ela, suas pacientes apresentam mais problemas de insônia do que os homens, em uma proporção que varia entre 30 e 40%. Os hormônios são provavelmente a causa dessa prevalência no sexo feminino, mas essa hipótese, ressalta, ainda não foi validada pelos estudos científicos que estão em andamento em vários centros especializados no mundo.“Não faz tanto tempo assim que nós, cientistas, nos interessamos às especificidades do sono das mulheres”, explica a neurologista francesa. Desde 2014, um grupo de trabalho criado por pesquisadores franceses se dedica ao assunto e os dados obtidos até agora pelos cientistas mostraram que os franceses e francesas dormem, em geral, o mesmo número de horas diárias, com uma pequena variação de 20 minutos. Há, entretanto, diferenças nos ciclos do sono profundo, ou não-REM (sigla para rapid eyes mouvement), sem sonhos e essencial para o descanso cognitivo, que seriam mais curtos nas mulheres. As fases do sono, traduzidas em ondas cerebrais, podem ser registradas pelos médicos em um exame chamado polissonografia, que grava a atividade cerebral do paciente quando ele está dormindo. Mulheres têm mais insônia Segundo a neurologista, pesquisas com animais também confirmaram as evidências de que as mulheres seriam mais propensas a outros distúrbios do sono, como a chamada Síndrome das pernas inquietas, que provoca movimentos involuntários quando a pessoa está dormindo. Os remédios usados para tratar essa e outras doenças do sono também não surtiriam o mesmo efeito em homens e mulheres, acrescenta, e algumas moléculas exigem adaptações terapêuticas. Uma das explicações é que os testes clínicos dos medicamentos aprovados ao longo das últimas décadas não levaram em conta as especificidades femininas. Os estudos ainda revelam que as diferenças de padrão de sono entre gêneros são estabelecidas principalmente na puberdade e continuam nas diferentes etapas da vida da mulher, em função das variações hormonais. “Por que essas mudanças acontecem e qual a relação com o sono? Porque nosso cérebro é cheio de receptores de estrogênios e de progesterona. Muitos desses receptores estão localizados em estruturas cerebrais envolvidas no controle da hora de dormir e acordar e no ritmo circadiano”, explica Isabelle Lambert. “Nós sabemos que a regulação hormonal na mulher é complexa”, acrescentou a ginecologista Christine Rousset Jablonski, que participou da mesma palestra no congresso francês. A partir da puberdade, o corpo da mulher se prepara para a reprodução. Os ovários são responsáveis pela produção da maior parte do estrogênio e da progesterona, os principais hormônios femininos. As glândulas suprarrenais, consideradas uma extensão do sistema nervoso, produzem os andrógenos adrenais que poderão em seguida ser convertidos em...

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O que são as ruminações mentais e como elas afetam os jovens adultos?

11/26/2024
As ruminações são pensamentos repetitivos negativos, às vezes inócuos, mas que podem estar relacionados a quadros de depressão e ansiedade. Elas decorrem muitas vezes de decepções ou frustrações que levam algumas pessoas a “remoer” situações sem conseguir superá-las, explica o psiquiatra Jean-Luc Martinot, pesquisador do Inserm (Instituto de Pesquisas Médicas da França). Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Segundo o especialista francês, as ruminações são um fenômeno subjetivo, vivenciado pela maior parte das pessoas e “difícil” de ser estudado. Mas algumas características desses pensamentos repetitivos já puderam ser estabelecidas pelos cientistas, como mostra um recente estudo dirigido pelo psiquiatra francês e publicado na revista científica Molecular Psychiatry. Um dos objetivos dessa pesquisa era identificar sinais no cérebro de jovens adultos entre 18 e 22 anos de que essas ruminações poderiam desencadear doenças mentais no futuro. A equipe focou nessa faixa etária porque esses pensamentos "invasivos", explica o psiquiatra francês, surgem principalmente na passagem da adolescência para a fase adulta. “As ruminações são algo frequente e não são uma característica da infância ou do início da adolescência”, explica o psiquiatra francês. “É um fenômeno da vida mental que pode até existir antes, mas que se torna mais frequente quando os jovens viram adultos”, completa. Descrição do estudo Durante a pesquisa, os cientistas franceses analisaram os dados de centenas de jovens europeus que responderam, durante vários anos, a questionários online sobre esses pensamentos frequentes, que causam desconforto e ansiedade. Periodicamente, eles eram submetidos a exames de ressonância magnética para detectar se havia mudanças na atividade cerebral quando os pensamentos repetitivos surgiam espontaneamente. Os pesquisadores então identificaram, no grupo de 600 jovens acompanhados pela equipe, aqueles que descreveram ruminações depressivas. Eles foram submetidos a uma ressonância magnética “livre”, que mede a atividade cerebral sem instruções dadas pela equipe médica. “O estado mental dos pacientes que tinham tendência às ruminações foi naturalmente captado pelo aparelho”, explica. O registro foi possível graças a um algoritmo que permite diferenciar a maneira como a atividade mental evolui no cérebro e conecta ao mesmo tempo diferentes regiões. “Por exemplo, durante as ruminações 'preocupantes', percebemos que havia regiões frontais que variavam ao mesmo tempo que algumas áreas dos gânglios da base, ou seja, áreas envolvidas na gestão das emoções”. Ruminações são divididas em três tipos A equipe do psiquiatra francês dividiu os pensamentos repetitivos em três tipos. As chamadas ruminações reflexivas têm uma conotação positiva e consistem na busca da solução para um problema. Os outros dois tipos estão relacionados às emoções negativas e às preocupações cotidianas, ou podem estar associadas à depressão. “A ruminação depressiva, pode, se persistir, pode ser primeiro sinal de um problema psiquiátrico mais grave”, diz o psiquiatra. Os pacientes que apresentavam ruminações negativas aos 18 anos tinham uma tendência maior ao desenvolvimento de sintomas de ansiedade e depressão, às vezes graves, quatro anos depois. A gravidade dos sintomas estava relacionada às modificações nas configurações cerebrais medidas durante as ressonâncias magnéticas. “Certos tipos de ruminações, como as relacionadas às preocupações, ou depressivas, anunciam o surgimento de sintomas internos, ou seja, de ansiedade ou depressão, ou externos, como agressividade, uso de drogas ou dependência química”. Isso pode ajudar a prevenir doenças mentais em jovens adultos com fatores de risco – e este é um dos interesses concreto do estudo. Segundo o psiquiatra, a gestão das emoções, certas características de personalidade, o padrão de sono, a existência de traumatismos e a puberdade precoce influenciam no surgimento de doenças psiquiátricas e podem prevenir seu...

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Quando suspeitar de insuficiência cardíaca e consultar um cardiologista

11/12/2024
A insuficiência cardíaca crônica atinge cerca de 64 milhões de pessoas no mundo, segundo estimativas da OMS (Organização Mundial da Saúde). A doença é uma das maiores causas de internação no Brasil, de acordo com dados do Ministério da Saúde. A incidência é maior entre adultos com mais de 45 anos, mas o problema também afeta pacientes mais jovens. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris A insuficiência cardíaca faz com que o coração não seja mais capaz de bombear sangue suficiente para suprir as necessidades orgânicas e provoca diversos sintomas, explica a cardiologista brasileira Lídia Moura, da Sociedade Brasileira de Cardiologia. O primeiro deles é a falta de ar, que chega ao ponto de o paciente, por exemplo, não conseguir mais ficar deitado. “Normalmente o paciente começa a sentir falta de ar durante o esforço. Em geral, essa dificuldade para respirar é progressiva e se agrava em esforços menores. Nessa fase, o paciente terá dificuldade para se deitar. Ele se sente bem sentado e, quando se deita, a falta de ar piora”, explica a especialista brasileira, que lamenta a falta de informação em torno da patologia. A gaúcha Katia Arruda, 63 anos, descobriu que tinha o problema cardíaco em 2020, durante a epidemia de Covid-19. A brasileira, que se diz “conectada nos 200 volts”, passou a sentir um cansaço fora do normal, que mudou completamente sua rotina. Katia, que também tem lúpus, uma doença autoimune, sentiu falta de ar, cansaço e suores, que a levaram a consultar um clínico-geral. Depois de realizar um eletrocardiograma, ela buscou a opinião de dois cardiologistas. O primeiro especialista minimizou o problema e atrasou o diagnóstico. “Ele olhou para meu eletrocardiograma e disse: você está gorda, vai procurar uma nutricionista”, conta. “Mas eu já estava com insuficiência cardíaca e cardiomiopatia grau 3”, o que equivale a um estágio bem avançado da doença, comenta Katia. O diagnóstico foi confirmado após a consulta com o segundo profissional, que pediu um ecocardiograma - exame que utiliza ondas sonoras para obter imagens do coração. “Não sei se estaria aqui hoje se não fosse ele. O médico falou que eu poderia ter morte súbita a qualquer momento”, comenta a brasileira, que chama o cardiologista de "anjo". Apesar das dificuldades, Katia foi medicada, aos poucos foi melhorando e hoje convive com a doença. A brasileira também administra um grupo no Facebook de 8 mil pessoas que têm insuficiência cardíaca e podem trocar experiências. Mas ela ainda se lembra de como seu cotidiano mudou de maneira repentina quando os sintomas apareceram. “Fiquei dois anos sem varrer uma casa, sem limpar um banheiro, sem nada. Foi muito difícil”. Esse cansaço extremo que Katia sentiu quando a doença se manifestou decorre do aumento de líquido no pulmão e é característico da insuficiência cardíaca. “Em pé, esse líquido fica mais acumulado na base do pulmão. Ao se deitar, ele se espalha automaticamente, gerando desconforto no paciente, que precisa mudar de posição. Ele tenta ficar mais ereto”, explica a cardiologista. A evolução da doença provoca o aparecimento de inchaço nas pernas, que é bilateral e ocorre com mais frequência no final do dia, explica. Com o passar do tempo, de maneira progressiva, o paciente já acorda com braços ou pernas inchados. O que causa a doença? Há diversos fatores que podem desencadear a insuficiência cardíaca. De acordo com a especialista brasileira, a condição equivale à fase terminal das doenças do coração e no passado a taxa de sobrevida era baixa. Mas, como os tratamentos evoluíram muito ao longo dos anos, os pacientes vivem mais tempo e com mais qualidade de vida. “Temos várias etiologias que causam a insuficiência cardíaca, como a Doença Valvar (NR: o grupo de deficiências ou anomalias nas valvas do coração – aórtica, mitral, pulmonar e tricúspide) ou a hipertensão. Outra causa comum no Brasil e outros países desenvolvidos é a doença coronariana. Os doentes hoje têm vários infartos e cada um deles causa uma...

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Como é a estratégia de vacinação contra a gripe e a Covid-19 na França?

11/5/2024
A campanha de vacinação contra a gripe e a Covid-19 começou no dia 15 de outubro na França. O país propõe a imunização em dose dupla para facilitar a vida dos pacientes, que podem tomar as duas injeções ao mesmo tempo. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris Além de não trazer riscos para a saúde, a dupla vacinação incita à realização das doses de reforço, que muitas vezes são deixadas de lado simplesmente por falta de tempo, mostram dados da Seguridade Social francesa. Mas, apesar do incentivo das autoridades de saúde do país, que propõem as duas vacinas gratuitamente para boa parte da população, a taxa de cobertura ainda é baixa. Na campanha que começou em outubro, a França utiliza a nova vacina da Pfizer adaptada à variante JN.1, que atualmente é dominante no país e no resto do mundo. Segundo dados do Ministério da Saúde francês, apenas 47% da população de mais de 65 anos com fatores de risco se imunizou contra a gripe durante a campanha de 2023-2024. Em relação à Covid-19, a situação é ainda mais preocupante. Somente 30% dos maiores de 65 fizeram a dose de reforço no ano passado, de acordo com a Santé Publique France, a agência de saúde pública francesa. Os pacientes com comorbidades são um dos principais alvos da campanha de vacinação, explica o pneumologista Laurent Ngueyn, da Associação Santé Respiratoire France, que implementa ações no país para melhorar a qualidade de vida das pessoas que sofrem de doenças respiratórias. “É preciso proteger as pessoas mais vulneráveis, as mais frágeis, para evitar que elas desenvolvam uma forma grave das duas doenças e o risco de complicações e de hospitalização”, lembra. Segundo o especialista, as pessoas que convivem com esses pacientes também devem se vacinar. A chamada proteção indireta, diz, infelizmente é levada pouco a sério no país. “A taxa de cobertura vacinal ainda é muito baixa na França, mas não pode ser considerada insignificante, porque muitas pessoas se vacinam. O problema é a dose de reforço”, destaca. "Globalmente a taxa de vacinação é correta, mas sempre podemos melhorar", avalia. Baixa adesão O desafio das autoridades francesas é ainda maior quando se trata da Covid-19. O pneumologista reconhece que existe um “cansaço” geral após a epidemia. “Acho que as pessoas simplesmente não querem mais ouvir falar dessa doença que, na minha opinião, traumatizou todo mundo”. Embora aos poucos esse trauma coletivo esteja sendo deixado para trás, os riscos existem e o vírus da Covid-19 pode provocar, além das formas graves, diferentes sequelas, mesmo em pacientes sem comorbidades ou fatores de risco. As vacinas protegem, ressalta Laurent Ngueyn, e o reforço deve ser um reflexo natural quando chega o inverno. “No verão, ao ar livre, o risco de contaminação como sabemos é mais baixo. Mas quando chega outono e o inverno e as temperaturas caem, ficamos mais dentro de casa e o risco de contaminação é maior. Infelizmente temos dados que mostram que a Covid-19 está voltando aos poucos”, alerta. Há consenso de que a vacina contra a gripe deve ser feita anualmente, mas no caso da Covid-19, a regularidade das doses de reforço pode variar de uma pessoa para outra, explica o especialista francês. “O paciente deve procurar seu médico e se informar. Ele conhece seu modo de vida, seu histórico, suas doenças, e suas reações às injeções anteriores. Nos pacientes com fatores de risco, na França, é aconselhável fazer o reforço a cada seis meses após a última dose da vacina ou infecção. Entre os imunossuprimidos e idosos com mais de 80 anos, nós aconselhamos uma dose a cada três meses”. Os fatores de risco englobam pacientes com doenças crônicas respiratórias, cardiovasculares, hepáticas, renais e metabólicas, como o diabetes ou a obesidade. Pacientes que recebem certos tratamentos contra o câncer, por exemplo, também podem desenvolver uma forma grave da Covid-19. Traumatismo O pneumologista francês, que atende na cidade Bordeaux, no sul do país, lembra que a epidemia, que começou em...

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Neurocientista francês alerta sobre fake news que envolvem Ciências Cognitivas

10/29/2024
Nossas emoções, comportamento e a maneira como aprendemos são o resultado de uma série de mecanismos cerebrais. Compreendê-los é o papel da Neurociência, uma área que desperta o interesse de um número cada vez maior de pesquisadores, mas também do público em geral. Essa busca pela compreensão do funcionamento cognitivo e emocional não é exatamente nova, explica o psicólogo e doutor em Neurociências, Albert Moukheiber, autor do livro Neuromania, le vrai du faux sur notre cerveau (Neuromania, como discernir o que é verdade?”, em tradução livre) publicado na França. Ele destaca que o problema é que o fluxo contínuo de informações sobre os mecanismos cerebrais, muitas vezes mal interpretado, pode ser nocivo e ter um impacto real. A promessa de melhorar a capacidade mental tornou-se o ganha-pão de muitos coachs de desenvolvimento pessoal, por exemplo, aponta o especialista francês. Essa é uma das áreas que tirou proveito da vulgarização científica em torno do tema para se transformar em um grande negócio. “Há duas razões principais para essa popularidade. Uma delas é o desenvolvimento pessoal, que ganha espaço no mais alto nível, e que gera muito lucro e dinheiro. Há promessas de como ser um líder melhor, ganhar mais, ser mais criativo, ter uma memória mais eficaz, ser mais inteligente ou aumentar o QI, por exemplo", diz. "Outra razão é ideológica: explicar alguns fenômenos sociais como a crença nas fake news, ou o imobilismo diante do clima. Nesse caso, haverá uma tentativa de analisar essas situações utilizando um “verniz científico”, e, para isso as Ciências Cognitivas. Raramente é pertinente”, ressalta. Conhecimento é limitado O especialista lembra que o conhecimento sobre os mecanismos cerebrais é limitado e que utilizar as Ciências Cognitivas para explicar como agimos, pensamos e nos sentimos pode ser um erro. “Como não sabemos direito como o cérebro funciona, podemos projetar todo tipo de fantasia ou explicação na Neurociência. Como nessas reportagens que mostram seu cérebro quando está apaixonado, seu cérebro se você é de esquerda, de direita, enfim... qualquer coisa”. Segundo ele, o excesso de simplificação em torno dos mecanismos cognitivos, e o uso indevido de informações sobre o funcionamento cerebral, infelizmente acabam influenciando decisões que podem ter efeitos diretos na vida das pessoas. O neurocientista francês concorda que o conhecimento do cérebro representou um grande avanço, mas lembra que ele é “diferente dos outros órgãos”. “(O cérebro) é um órgão que chamamos de dependente do contexto. Se nós estivéssemos tendo essa conversa fora do estúdio, não estaríamos conversando da mesma maneira. As palavras que utilizaríamos seria diferente, a eloquência também assim como o tom da nossa voz”, detalha Albert Moukheiber. Para o neurocientista, essa contextualização é essencial. “É como se eu estudasse o cérebro dentro de uma máquina de ressonância magnética dentro de um hospital para entender o amor. Não sei como resolveremos esse problema, não temos como criar uma ciência da subjetividade”. Os chamados testes de personalidade, muito usados no meio corporativo, são outro exemplo, lembra o especialista francês. “Os resultados desses testes são escritos para que todas as pessoas se identifiquem com eles de alguma maneira. O problema é que você talvez não consiga o emprego porque o teste vai mostrar que você não tem o perfil. Perder uma vaga por conta de um teste que não é, em hipótese alguma, confiável, é absurdo. Eles não têm nada a ver com testes que usamos na nossa prática clínica, por outras razões, como a realização de diagnósticos diferenciais”, critica o especialista. É nesses momentos, diz o neurologista, que as consequências negativas da desinformação em torno das ciências cognitivas são palpáveis. “Você será deixado de lado, não porque fez algo errado, mas porque não tem a personalidade adequada”, e isso, reitera, por conta de um teste que não tem nenhum valor científico.

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Por que a UE não aprovou o uso dos novos medicamentos contra o Mal de Alzheimer?

10/22/2024
A doença que afeta principalmente pessoas com mais de 65 anos seria responsável por até 70% dos casos de demência. Duas novas moléculas trazem esperança para os pacientes e suas famílias, mas a Agência Europeia de Medicamentos (EMA) questiona o custo-benefício dos remédios, que geram muitos efeitos colaterais. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris O donanemab é uma imunoterapia que visa reduzir a quantidade de depósitos de proteínas beta-amilóides no cérebro. O lecanemab tem essa mesma função e ambos prometem diminuir os sintomas da doença, apesar de não impedirem sua progressão. Associações de pacientes e profissionais franceses entraram com um recurso junto à Agência Europeia de Medicamentos para pedir uma nova avaliação dos produtos e aguardam as conclusões. As duas moléculas são fruto de um grande avanço na compreensão da doença, explica o neurologista francês Bruno Dubois, professor da universidade Sorbonne e ex-chefe do setor no hospital Pitié Salpetrière, em Paris. Há cerca de dois anos, estudos científicos comprovaram que os sintomas são uma consequência das lesões cerebrais, o que até então era apenas uma hipótese. A validação possibilitou o surgimento do donanemab e do lecanemab, explicou o cientista. Aprovados para uso nos EUA pela FDA, a Agência Americana de medicamentos, mas também em vários outros países, os medicamentos ainda geram reticências na Europa, lamenta o neurologista francês. “Os especialistas da Agência Europeia de Medicamentos, que não são especializados no Mal de Alzheimer para evitar conflito de interesses, constataram que o benefício gerado pelos remédios é modesto e os efeitos colaterais não podem ser ignorados. Nessas condições e levando em conta o custo, eles não serão autorizados”, explicou. Na França, onde os medicamentos são gratuitos, na falta do aval da agência o donanemab e o lecanemab não poderão ser reembolsados pela Seguridade Social. Para o neurologista francês, essa decisão cabe ao paciente, após ele estar ciente das eventuais reações adversas. “Sim, há efeitos colaterais. Mas esse é um dos interesses na utilização desse remédio. Pouco a pouco, vamos conhecer melhor as indicações e prevenir as eventuais reações, observando por exemplo por que alguns pacientes desenvolveram mais reações em relações a outros”, defende Bruno Dubois. “Já constatamos algumas contra-indicações e é assim que vamos avançar. Mas excluir os países europeus e a França dessa reflexão é uma pena, para os pacientes e para nós, profissionais". Diagnóstico precoce A Ciência ainda não sabe como interromper a progressão da doença de Alzheimer. Ela se manifesta raramente antes dos 60 anos, mas é comum depois dos 80 e atinge mais mulheres. A perda da memória progressiva provocada pela patologia torna o doente incapaz de gerenciar gestos básicos da vida cotidiana. Na fase mais avançada, a doença causa perda de autonomia e de identidade, desestabilizando o paciente e a sua família. O diagnóstico precoce é essencial para controlar sua evolução e melhorar a qualidade de vida. Os novos medicamentos intervêm justamente no momento em aparecem os primeiros sintomas de perda de memória. “Eles demonstraram sua maior eficácia no início dos sintomas e da demência”, explica o especialista. Segundo ele, os remédios “limpam” os depósitos dos peptídeos beta-amilóides no cérebro e, desta forma, desaceleram a evolução da doença. “O resultado é mínimo, não devemos nos iludir. Mas mesmo assim ele é considerável, porque valida todos os modelos que sustentam nossas reflexões há cerca de 20 anos”. Na França, o Mal de Alzheimer atinge cerca de 1 milhão de pessoas. Em todo o mundo, cerca de 50 milhões de pessoas convivem com a doença, de acordo com a OMS (Organização Mundial da Saúde). Para Bruno Dubois, esse aumento se explica pelo envelhecimento da população, da esperança de vida e do progresso da Medicina. Mas, em contrapartida, crescem também os casos de doenças cerebrais degenerativas e de cânceres. Quando consultar? Entre 60 e...

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Radioterapia para tratar câncer de mama que já atingiu gânglios será mais curta, explica oncologista que dirigiu estudo

10/15/2024
A radioterapia para tratar tumores do seio que já atingiram os gânglios linfáticos agora terá três semanas em vez de cinco, segundo um estudo dirigido pela oncologista e radioterapeuta Sofia Rivera, do instituto francês Gustave Roussy. Os resultados foram divulgados em setembro, durante o congresso da ESMO, a Sociedade Europeia de Oncologia, que todos os anos apresenta os últimos avanços na luta contra a doença. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris A pesquisa mostrou que a eficácia da radioterapia de 15 sessões em três semanas, com doses um pouco mais fortes de radiações, é similar a 25 sessões de cinco semanas. A descoberta foi anunciada após a fase 3 do estudo, chamado de HypoG-01. Os resultados apresentados modificarão o protocolo de tratamento radioterápico aplicado em pacientes do mundo todo, segundo a oncologista francesa. Os testes clínicos aconteceram em 29 estabelecimentos franceses, entre setembro de 2016 e março de 2020. A idade média das 1 265 pacientes era 58 anos e todas haviam sido operadas de um câncer do seio locorregional, ou seja, que atingiram os gânglios. O estudo vai facilitar a vida das pacientes, explicou a oncologista e radioterapeuta Sofia Rivera. “O HypoG-01, apresentado em uma sessão da Sociedade Europeia de Oncologia Médica, é o primeiro estudo a demonstrar que quando tratamos um câncer com um volume maior, podemos fazer uma radioterapia mais curta e passar de cinco para três semanas de tratamento”, explicou à RFI. A radioterapia é a última etapa do tratamento contra o câncer de mama. Duas semanas a menos é um verdadeiro “alívio” para as pacientes, mas também para o já sobrecarregado sistema de saúde francês, que tem cada vez mais dificuldade em atender a demanda. “Esse tempo mais curto também representa uma redução de custos e menos idas e vindas das pacientes aos hospitais” diz a oncologista. A redução do tempo da radioterapia também libera vagas nas máquinas para atender outras mulheres mais rapidamente e aumenta em alguns casos as chances de sobrevida e de cura. Na França, cerca de 90% dos cânceres de mama são descobertos no estágio inicial ou já atingiram os gânglios, sem metástases em outros órgãos. Efeitos colaterais Para ser validado e garantir a segurança das pacientes, o estudo se concentrou nos eventuais efeitos colaterais que poderiam surgir por conta da maior intensidade das radiações. “Quando irradiamos os gânglios, irradiamos também mais tecidos normais. Temos o coração, e atrás dos gânglios, embaixo da clavícula, o pulmão, além dos vasos e nervos dos braços", descreve Sofia Rivera. "Um dos temores era que as pacientes tivessem mais efeitos colaterais e linfedemas, ou seja, braços inchados. É um risco que aparece após a cirurgia e a radioterapia dos gânglios. Mas o estudo mostrou que as pacientes não tinham mais reações adversas. Pelo contrário, tinham até menos, porque sentiam menos cansaço. Nossa conclusão é que só há benefícios para elas”, resume. Além do tratamento em si, não é apenas o caminho de casa até o hospital que cansa as pacientes. Há também a adaptação aos horários das consultas e a expectativa na sala de espera, muitas vezes ao lado de outras mulheres tratadas por cânceres mais graves. “Isso pode ser psicologicamente difícil”, destaca a oncologista. Vantagem em zonas de guerra Desde a apresentação do estudo no congresso europeu, vários centros de tratamento adotaram o novo protocolo e a oncologista francesa foi procurada por profissionais de vários países, inclusive da Ucrânia. "Felizmente as radioterapias continuaram no país apesar da guerra e diminuir os deslocamentos das pacientes é um benefício incontestável", lembra. “Vamos organizar um workshop online para ajudar as equipes e formá-las para adotar esse novo tratamento”. Ela lembra que o diagnóstico precoce continua sendo um dos maiores aliados das pacientes e, neste caso, as chances de cura podem chegar a 100%, lembra Sofia Rivera. Ela lamenta que na França muitas mulheres simplesmente não façam a...

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França tem alta de inscrições em clubes esportivos após Jogos Olímpicos de Paris

10/8/2024
As competições dos Jogos Olímpicos motivaram crianças, jovens e adultos franceses, que se empolgaram com o desempenho de alguns campeões e decidiram praticar uma atividade esportiva. É o que explica o especialista francês Jean-Marc Sène, médico do Esporte e autor do livro Le Sport: je me lance (Como iniciar uma atividade física em tradução livre). Em setembro, início do ano letivo na França, muitos clubes de natação, por exemplo, registraram um aumento das inscrições após a proeza do nadador francês Léon Marchand, que levou quatro medalhas de ouro na Olimpíada. “Quando um atleta ganha uma medalha em uma modalidade, há um aumento imediato nas inscrições das federações esportivas”, afirma Jean-Marc Sène. Mas, apesar dos benefícios incontestáveis da prática esportiva, que reduz o estresse, melhora a qualidade do sono e ajuda no controle do peso, há maneiras de começar ou retomar uma atividade física e mantê-la ao longo do tempo. O ideal, principalmente para crianças e adolescentes, é testar três ou quatro atividades diferentes. “Escolher uma atividade apropriada ao seu físico e estado de espírito é um aspecto importante. E também se colocar algumas questões: qual é a minha preferência? Um esporte individual ou em grupo? Ao ar livre ou indoor?” A atividade física, lembra, não faz bem apenas para o corpo, mas também para a alma. “A prática esportiva aumenta a autoconfiança e favorece a sociabilidade”, frisa. O esporte também gera uma sensação de bem-estar graças a efeitos fisiológicos ativados pela secreção de hormônios como a endorfina, a serotonina e a dopamina, que ativam o chamado sistema de recompensa. Evitando contusões Para que esses efeitos sejam duradouros, é importante ter uma prática adequada à própria capacidade. Um esporte como o futebol, por exemplo, pode provocar contusões graves com o avanço da idade. “Os tendões, a partir de uma certa idade, são menos vascularizados, menos sólidos, e têm uma capacidade menor para se fortalecer, justamente porque são menos vascularizados", explica o especialista. "Com a idade, a massa muscular também diminui e se apoia nesse tendão. Esse desequilíbrio ocorre geralmente em torno dos 35 ou 40 anos, porque continuamos a arcar com nossa massa muscular. Mas os tendões enfraquecem”. Esse tipo de contusão é comum entre atletas profissionais. A solução, em todos os casos, é reforçar os tendões em sessões de fisioterapia específicas. Esportes de impacto costumam ser mais agressivos para o corpo e por isso o médico do Esporte francês recomenda atividades como a natação, por exemplo. É preciso também ter cuidado ao retomar ou iniciar uma prática esportiva. O programa físico deve ser adaptado em função do caso, e poderá incluir mais alongamentos e menos musculação. Uma das primeiras precauções é consultar um médico para se certificar da ausência de problemas cardiovasculares ou outras doenças crônicas que exigem adaptações, como o Diabetes, por exemplo. A alimentação, claro, também é um ponto essencial. Na ausência de fatores de risco, o retorno deve ser progressivo. “São necessárias algumas semanas ou meses para retomar a forma”. A ginástica, como sabemos, também é uma aliada importante para manter o peso, mas Jean-Marc Sène lembra mais uma vez que as atividades de impacto são desaconselhadas. Para quem busca perder barriga ou melhorar a flacidez, por exemplo, o ideal é apostar em exercícios que trabalhem os músculos transversos do abdômen, para tonificá-los. De uma maneira geral, Jean Marc Sène recomenda uma atividade física moderada e adaptada a cada indivíduo. “Cerca de 30 minutos, cinco dias por semana, além de evitar o sedentarismo, como ficar sentado mais de uma hora e meia seguida durante o dia. A cada 90 minutos é bom se levantar, mexer um pouco, tomar um copo de água ou se movimentar um pouco. Esse é o meu conselho”.

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Como é o tratamento do Transtorno do Déficit de Atenção na França?

10/1/2024
A prevalência do TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), também conhecido como DDA, é de 5% em nível mundial e o número de casos vem crescendo, de acordo com dados da Alta Autoridade de Saúde da França (HAS), vinculada ao Ministério da Saúde. O órgão, que emite recomendações sobre práticas médicas, publicou em setembro um guia para melhorar o diagnóstico e o tratamento das crianças e adolescentes que convivem com o Déficit de Atenção. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris O transtorno neurológico é provocado por diferenças na estrutura e no funcionamento cerebral da região frontal, explicou o psiquiatra francês Olivier Bonnot, que liderou a equipe responsável pela elaboração do documento que, segundo ele, encerra o trabalho realizado pelo órgão em torno da questão. “A ideia em torno dessas recomendações é que elas sejam uma base, um guia para que os profissionais possam fazer o diagnóstico e as intervenções terapêuticas necessárias nas crianças e adolescentes que têm um TDAH. Isso inclui os clínicos-gerais”, explica. Na França, os pacientes são obrigatoriamente acompanhados por um clínico-geral. De acordo com o psiquiatra, a ideia é também propor formações reconhecidas para capacitar esses profissionais a detectar o transtorno. “Um dos objetivos dessas recomendações é colocar à disposição dos profissionais uma espécie de guia prático para realizar o exame psiquiátrico e clínico dos pacientes, e assim detectar os sinais do TDAH, que são a falta de atenção, o excesso de distração, e impulsividade”, explica. Os sintomas também podem incluir a desregulação emocional e a hiperatividade, que não está sempre presente. O diagnóstico é complexo, já que outras doenças mentais, como a Depressão ou a Ansiedade, podem estar associadas ou apresentar características similares. A insônia, lembra, também provoca sintomas parecidos com o do Déficit de Atenção. Por isso é importante fazer o diagnóstico diferencial e detectar outras comorbidades psiquiátricas. Em termos biológicos, estudos mostram que o funcionamento dos cérebros das crianças e adultos que têm TDAH é diferente. “ A conectividade de algumas áreas cerebrais, como a frontal, não funciona direito. É mais um problema de conectividade do que de um neurotransmissor, como a dopamina, em particular”, diz. Ele lembra que os mecanismos das doenças psiquiátricas são alvo de diversas pesquisas e há avanços na compreensão do transtorno. Estudos com imagens mostram diferenças nos cérebros dos indivíduos que convivem com o TDAH, e as neurociências cognitivas trouxeram algumas respostas sobre as origens da doença, que surgem na infância, a partir de anomalias no desenvolvimento cerebral. Não existe, entretanto, um marcador biológico para detectar o Déficit de Atenção. Defeito na função executiva Todos nós lidamos com diversas informações ao mesmo tempo no cotidiano e nosso cérebro deve ser capaz de selecionar aquelas que são importantes para atingir as metas estabelecidas. O sistema cerebral encarregado dessa tarefa é a função executiva, que fará a triagem das informações, hierarquizá-las e produzir uma ação dirigida. Esse mecanismo não funciona direito em quem tem Déficit de Atenção. As recomendações do órgão francês englobam vários aspectos. Entre elas, a detecção precoce em consultas com a criança, os pais, mas também adultos que convivem com elas na escola ou outras atividades. Em seguida, é preciso adaptar o ambiente escolar e em casa – os professores e pais devem aprender a lidar com as dificuldades em função das características individuais da criança. O tratamento é principalmente baseado no acompanhamento psicoterápico e a medicação, como a ritalina, por exemplo, só é recomendada em casos mais complexos. O psiquiatra francês Gérard Macqueron, autor do livro “Psicologia da Atenção”, lembra que, nas crianças, o transtorno pode desaparecer na vida adulta, mas persiste em até 60% dos casos. Entre os adultos, cerca de 5% convive a doença sem diagnóstico,...

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Cientistas franceses identificam linfócitos envolvidos no aparecimento de cânceres

9/24/2024
Um grupo de pesquisadores franceses descobriu que a presença de um subtipo do linfócito Th17, uma das células que compõem nosso sistema de defesa, pode contribuir em alguns casos ao desenvolvimento de certos tipos de tumores, como os do intestino, fígado ou pâncreas. Taíssa Stivanin, da RFI em Paris O estudo foi realizado durante quatro anos por especialistas do CNRS (Centro Nacional de Pesquisa Científica da França), do Inserm (Instituto de Pesquisas Médicas da França), da universidade Claude-Bernard Lyon 1 e do Centro de Pesquisa Oncológica de Lyon. Os cientistas franceses identificaram um dos mecanismos do processo inflamatório presente em algumas doenças crônicas que levaria ao surgimento de certos cânceres, disse à RFI Brasil o imunologista francês Julien Marie, que participou da pesquisa, publicada no final de julho na revista científica Nature Immunology. Para entender como os pesquisadores chegaram a essa conclusão, é necessário compreender o papel dos glóbulos vermelhos ou brancos, os linfócitos, em nosso organismo. “Os glóbulos vermelhos são responsáveis pelo transporte do oxigênio no sangue e os brancos combatem os agentes infecciosos e as células defeituosas”, explicou o cientista francês. Os glóbulos brancos são divididos em dois grandes grupos, formados pelos linfócitos B, que produzem os anticorpos, e os linfócitos T. A função deles é destruir células defeituosas ou que foram contaminadas por um vírus ou uma bactéria, por exemplo. Para isso, libera moléculas como as citocinas, que vão criar a inflamação e favorecer a cicatrização e a cura. O problema é que esse processo às vezes pode sofrer alterações e gerar doenças ou agravar infecções – um exemplo é a forma grave da Covid-19. A equipe francesa descobriu que o linfócito Th17, presente na Doença de Crohn, uma patologia crônica intestinal, poderia atuar no aparecimento de células cancerígenas. Muitos tumores, lembra Julien Marie, surgem a partir de uma inflamação crônica. Quando ela atinge uma parte específica do intestino, como é o caso dos pacientes que têm Crohn, as células vão se modificar e se tornar cancerígenas exatamente na porção inflamada. “No nosso estudo, tentamos entender quais eram as células do sistema imunológico na origem dessa inflamação que vai gerar o câncer. São etapas extremamente precoces do desenvolvimento da doença”. Esse mecanismo localizado ajudou a equipe a “cercar” a área onde ocorre todas as modificações celulares. Os cientistas então constataram que um subtipo dos linfócitos Th17 estava na origem de alguns tumores. “Hoje temos técnicas que permitem analisar uma célula de cada vez. Percebemos que as células Th17 tinham oito subtipos, e um deles podia desencadear o câncer através da inflamação criada por ela mesma”, explica. Citocina bloqueia aparecimento do câncer O estudo analisou os linfócitos invitro, no laboratório, as células das biópsias de pacientes que tinham a Doença de Crohn. Eles têm, em geral, quase seis vezes mais chances de desenvolver um câncer colorretal que um indivíduo normal, explicou o cientista francês, e entender o porquê era um dos objetivos da equipe. Durante o estudo, os pesquisadores conseguiram provar que o linfócito Th17 estava presente nos pacientes que desenvolveram os tumores. “No nosso artigo científico caracterizamos os linfócitos que geram o câncer, fazemos uma descrição deles e definimos um certo número de marcadores que propomos para defini-los", explicou. "Fomos ainda mais longe, porque toda a questão por trás da nossa pesquisa era saber se podíamos bloquear o aparecimento do câncer”, acrescenta. Foi justamente essa uma das grandes descobertas da pesquisa. “O desenvolvimento das células cancerígenas pode ser bloqueado pela presença de uma citocina, TGF–β (TGFBETA)”. Se o nível dessa citocina diminui no intestino, por exemplo, favorecerá o aparecimento do câncer, reitera Julien Marie. A descoberta pode ajudar no desenvolvimento de novas terapias contra o câncer e também na prevenção,...

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