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Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
Location:
Paris, France
Networks:
RFI
Description:
Entrevistas diárias com pessoas de todas as áreas. Artistas, cientistas, professores, economistas, analistas ou personalidades políticas que vivem na França ou estão de passagem por aqui, são convidadas para falar sobre seus projetos e realizações. A conversa é filmada e o vídeo pode ser visto no nosso site.
Language:
Portuguese
Episodes
Grupo cearense Murmurando e Adelson Viana lançam álbum no Festival de Choro de Paris
4/4/2025
“De Cá Pra Lá" é o novo do novo trabalho do grupo Murmurando realizado em parceria com o maestro e acordeonista Adelson Viana. Os artistas cearenses lançam o álbum durante a participação no Festival de Choro de Paris, neste final de semana. O evento integra a programação do Ano do Brasil na França.
“Esse álbum é uma grande celebração. Em 2025, a gente celebra 20 anos do grupo e o maestro Adelson Viana faz parte da nossa história”, comemora Samuel Rocha, fundador do Murmurando. Ele lembra que o acordeonista foi o diretor musical do primeiro CD lançado pelo grupo, Assovio do Tiê. “A proposta foi unir as gerações e levar a música instrumental cearense para o mundo”, acrescenta.
As dez faixas do novo disco propõem um passeio musical por estilos diversos como o choro, baião, forró, entre outras influências de ritmos e compositores nordestinos como Dominguinhos e Hermeto Pascoal.
“Conheci esse grupo quando eram ainda muito jovens, mas já tocando uma música de muita qualidade. Percebi, maravilhado, tudo que esse grupo conquistou e resolvemos fazer essa conexão”, diz Adelson Viana, que assina a maioria das composições. No entanto, o maestro destaca o trabalho coletivo feito nos arranjos das músicas. “O resultado ficou muito bacana, estou feliz de lançar esse trabalho aqui na Europa”, afirma.
Além do lançamento do disco “De Cá Pra Lá”, durante as apresentações na programação do Festival de Choro de Paris, que acontece de 4 a 6 de abril, o grupo Murmurando e Adelson Viana também vão continuar a turnê com apresentações previstas em Lille, norte da França, e em Londres.
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Multi-instrumentista e compositora mineira é um dos destaques do Festival de Choro de Paris
4/4/2025
Raíssa Anastasia, flautista e compositora mineira, é uma das atrações do Festival de Choro de Paris, que acontece entre os dias 04 e 06 de abril. Conhecida por sua versatilidade musical e seu trabalho de pesquisa sobre mulheres compositoras, Raíssa se destaca não apenas como instrumentista, mas também como uma verdadeira “embaixadora do choro brasileiro”.
Raíssa Anastasia escolheu um repertório totalmente dedicado às mulheres compositoras para sua primeira apresentação na França, na 21ª edição do Festival de Choro de Paris. "Eu estou com um repertório só de mulheres compositoras de choro, que faz parte de uma pesquisa que eu venho desenvolvendo há um tempo. É importante promover esse repertório para que as pessoas conheçam e toquem mais músicas criadas por mulheres", afirmou na entrevista à RFI.
A pesquisa desenvolvida como acadêmica na Universidade Estadual de Minas Gerais surgiu da constatação de que as referências musicais do choro eram predominantemente de homens. “Conhecia Chiquinha Gonzaga, Luciana Rabello e, espera aí, só tem essas duas? Não, não é possível. Eu não sabia nomear outras mulheres e isso me deixou muito intrigada”, contou.
Durante sua investigação, a multi-instrumentista identificou mais de 100 composições de choro feita por mulheres, no Brasil e no exterior. Estimulada por um professor de música, ela participou de um curso voltado para estimular compositoras de choro e passou a criar seu próprio repertório. “Hoje, já tenho uns 30 choros”, comenta.
Raíssa também é diretora musical do grupo “Abra Roda Mulheres no Choro”, formado exclusivamente por mulheres em Belo Horizonte, para cobrir uma lacuna na cena musical da cidade. “Há uma ausência de mulheres na roda de choro, quando aparecia, era geralmente só solista. Então, há uma ausência de mulheres tocando violão, ausência de mulheres tocando cavaquinho, muito poucas tocando pandeiro. A tentativa é de unir essas forças para construir um trabalho de fortalecimento mesmo entre nós”, afirma. O trabalho do grupo também visa valorizar as criações de compositoras. “Esse trabalho é essencial para dar mais visibilidade às mulheres na música instrumental”, argumenta.
Projetos e disco
Além de seu trabalho com o grupo, Raíssa tem dois projetos próprios: "Raíssa Anastasia e Regional", focado em composições de choro, e "Raíssa Anastasia Quarteto", que explora uma linguagem mais livre da música brasileira. "Sempre fui coadjuvante em projetos de outros músicos, mas tomei coragem para criar meus próprios trabalhos. Quero ser livre para transitar entre diferentes estilos musicais", disse Raíssa. “Sempre me incomodou quererem me inserir numa caixinha. Eu quero poder ser livre para hoje tocar forró, amanhã jazz ou música de meditação, eu quero poder estar livre”, diz.
Raíssa Anastasia se prepara para lançar ainda este ano seu primeiro álbum, "Nascimento", com 12 faixas autorais, e planeja uma turnê pela Europa no próximo ano. "Quero mostrar o papel da mulher instrumentista na música brasileira e inspirar futuras gerações", concluiu.
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Brasileiro Rodrigo Ribeyro é selecionado para residência artística do Festival de Cannes na França
4/2/2025
O brasileiro Rodrigo Ribeyro faz parte dos cineastas escolhidos este ano para participar de uma residência artística organizada pelo Festival de Cannes. O paulista já iniciou sua estadia em Paris, onde vai se concentrar durante os próximos meses na fase de desenvolvimento de seu primeiro longa-metragem.
A cada ano, o Festival de Cannes escolhe doze jovens cineastas para uma residência artística realizada durante quatro meses e meio em Paris. Durante esse período, os diretores, que têm viagem e estadia paga pelos organizadores, podem se concentrar na elaboração de seus roteiros e no desenvolvimento de seu primeiro ou segundo longa-metragem.
“Estou muito entusiasmado. Espero que renda muito e que eu saia daqui com o projeto muito mais maduro”, disse Rodrigo Ribeyro em entrevista à RFI.
O paulista está na capital francesa junto com outros cinco diretores. “É um luxo, incrível. Cada um tem sua privacidade preservada para conseguir se conectar com sua inspiração, suas questões e desenvolver o projeto", conta. "Além disso, eles dão um apoio [financeiro] mensal para que a gente possa focar no projeto. São quatro meses e meio durante os quais eles cuidam integralmente da gente. É uma residência incrível, uma oportunidade única de vida”, celebra.
O cineasta ressalta que esse tipo de apoio é “fundamental”, principalmente no início do processo de criação. “Se essa fase não é apoiada, a gente nunca chega em projetos de qualidade”, aponta.
Durante sua estadia, Ribeyro vai trabalhar no desenvolvimento de seu primeiro longa, ‘Muganga’, que, como em seus projetos anteriores, se interessa pela relação entre o homem e a natureza. “Será uma pura ficção, que se passa na Serra da Cantareira, onde eu cresci”, conta.
Em 2021, o paulista já tinha ficado em terceiro lugar na premiação de curtas da Cinéfondation, programa também ligado ao Festival de Cinema de Cannes, com o curta “Cantareira”, que seguia a mesma temática. O projeto era seu TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) da Academia Internacional de Cinema, em São Paulo. “Esse apoio [que recebi] desde a participação do meu curta já foi essencial para que muitas coisas começassem a acontecer”, relembra.
Grandes nomes passaram pela residência
Além do brasileiro, foram acolhidos nesta fase da residência a húngara Flóra Anna Buda, o italiano Andrea Gatopoulos, a chinesa Xiwen Cong, o austríaco Simon Maria Kubiena e a norte-americana Constance Tsang. Eles participam do programa entre 15 de março e 31 de julho. Um segundo grupo, também de seis cineastas, se beneficia do mesmo programa na sequência.
O projeto La Résidence du Festival de Cannes já está em sua 49ª edição. Durante esses anos, o programa recebeu mais de 250 cineastas, oriundos de 60 países. Entre os participantes da residência, muitos fizeram carreira internacional de sucesso, como a argentina Lucrecia Martel, selecionada duas vezes para o Festival de Cannes (2004 e 2008), o belga Lukas Dhont, premiado em Cannes em 2018 e 2022, ou ainda o brasileiro Karim Aïnouz, laureado em Cannes e na Berlinale, entre outros.
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De Capão Redondo para o mundo: Lincoln Péricles leva “quebrada” brasileira a Paris e conecta periferias
3/31/2025
A obra do cineasta brasileiro Lincoln Péricles LK espelha o vigor e a criatividade da produção cinematográfica brasileira contemporânea. O diretor, roteirista e montador que retrata em seus filmes o bairro do Capão Redondo, na periferia de São Paulo, está fazendo uma residência artística em Saint-Denis, na região parisiense, depois de ter sido um dos convidados de honra do Festival Regards Satellites. Ele conecta na França seu projeto de “Cinemateca da Quebrada” com a “Cinémathèque idéale des banlieues du monde” (A Cinemateca ideal das periferias do mundo).
Lincoln Péricles LK começou a filmar muito jovem, usando o telefone celular presenteado pelo patrão de sua mãe. Em 15 anos de carreira, produziu filmes, longas e curtas-metragens, que mostram a quebrada onde nasceu e mora, seus moradores e histórias. A obra de LK integra o território periférico do Capão Redondo à produção cinematográfica nacional.
O diretor já passou por vários festivais de cinema, venceu prêmios no Brasil e agora, pela primeira vez, exibe seu trabalho em Paris. O 3° Festival Regards Satellites, ou Olhares Satélites, de Saint-Denis, periferia de Paris, realizado no início de fevereiro, incluiu em sua programação vários filmes de LK, como “O Cinema Acabou”, “Mutirão: o Filme”, “Cohab” ou “Filme de Aborto”.
LK participou das sessões ao lado de outro cineasta brasileiro, Adirley Queirós, natural de Ceilândia, cidade satélite de Brasília. Os dois “estão na linha de frente de reformulação dos desafios políticos e estéticos da criação cinematográfica do Brasil” escreve Claire Allouche, programadora do festival.
Saudando calorosamente cada parceiro que cita, LK diz que essa experiência em Paris está sendo incrível. “O meu corpo sendo o território que eu habito antes do território físico, eu sempre acho muito incrível poder (me) conectar com pessoas de outras quebradas, de outros lugares do mundo”, indica.
Embaixador das quebradas
O paulista ressalta que ele e todos os moradores das quebradas sempre têm que “desfazer a imagem de Brasil que as pessoas têm” pelo mundo. Segundo LK, o Brasil em que ele vive “é um outro Brasil, a nossa classe é uma outra classe. Então, a gente se conecta com as pessoas que também são parecidas com nós (sic) e aqui tá sendo a mesma fita”.
O cineasta, que já esteve em outros países, como Quênia e Uganda, desenvolvendo projetos, concorda que exerce uma função informal de embaixador dessa produção cinematográfica periférica e contemporânea brasileira. No entanto, para internacionalizar sua carreira, conseguiu superar barreiras - de língua e de acesso a ações afirmativas - e destaca que representa um coletivo.
“Eu sou só mais um dessa grande quebrada que é o Capão Redondo. Só que se eu posso, de alguma forma, trazer mais dos meus junto comigo. De certa forma, eu me vejo como uma pessoa que está apresentando um outro Brasil, um outro painel de vozes, de poéticas que normalmente não têm acesso ou recurso para atingir outros países”, pondera.
Depois do Festival Regards Satellites, Lincoln Péricles iniciou uma residência artística em Saint-Denis. Ele realiza na periferia parisiense um filme com a mesma estética, entre ficção e documentário, que caracteriza sua produção. “Como eu disse, o meu corpo é o meu território. Cada lugar que eu acessar, vou conseguir produzir a poesia que eu produzo no quintal de casa ou em qualquer outro lugar do mundo”, afirma o cineasta.
LK salienta a necessidade de registrar, documentar as quebradas, e defende o cinema periférico como contraprova do processo de colonização, apagamento e violência do Estado contra o povo. Citando um amigo, ele também define sua estética como “magia”.
Os primeiros planos do filme realizado com os moradores e artistas locais serão exibidos na segunda etapa do festival Regards Satellite de Saint Denis, que acontece de 3 a 6 de abril, em parceria com a Mostra de Tiradentes.
Cinemateca ideal das periferias do mundo
A partir de maio, Lincoln Péricles deve finalizar o...
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"Sob o bolsonarismo, ‘Ainda Estou Aqui’ jamais teria sido produzido", diz Marcelo Rubens Paiva
3/28/2025
O roteirista, escritor, dramaturgo e gaitista Marcelo Rubens Paiva está em Paris para participar de um encontro na universidade Sorbonne Nouvelle nesta sexta-feira (28). Em entrevista à RFI, ele falou sobre seus novos projetos, após o sucesso mundial de "Ainda Estou Aqui", e comentou a decisão da Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) que tornou réus, na quarta-feira (26), o ex-presidente Jair Bolsonaro e outros sete aliados por tentativa de golpe de Estado.
Daniella Franco, da RFI em Paris
"Esse julgamento é, para mim, a trajetória do óbvio, é o que estava escrito", diz Marcelo Rubens Paiva. Para o autor de "Ainda Estou Aqui", obra em que foi baseado o filme homônimo de Walter Salles, não há dúvidas de que houve uma tentativa de golpe de Estado após a eleição de Luiz Inácio Lula da Silva.
"Todo mundo que é bem informado, que não se informa apenas pelas fake news e mentiras das redes sociais, as pessoas que leem e que sabem o que está escrito nas entrelinhas, as pessoas que viram as imagens do que estava acontecendo em Brasília [em 8 de janeiro de 2023], viram que era evidente que aquilo iria acontecer", ressalta.
No entanto, o escritor não acredita que haja espaço para um novo regime autoritário no Brasil hoje, a exemplo do período militar que viveu e retrata no livro "Ainda Estou Aqui", quando seu pai, o ex-deputado e engenheiro Rubens Paiva, foi preso e morto nas dependências de um quartel do Rio de Janeiro, em 1971.
"Há um esgotamento do ideal autoritário no Brasil. Não é mais uma tese popular. Uma pequena porcentagem de pessoas acreditava que a solução seria um golpe de Estado, e não fazia o menor sentido aquilo", diz, referindo-se ao projeto de Bolsonaro e aliados.
No entanto, Marcelo reconhece que a situação "assusta" e lembra que o golpe de 1964 ocorreu de forma similar ao planejado pela atual extrema direita brasileira, "sob iniciativa de uma minoria que acabou convencendo uma maioria". "Se nós estivéssemos hoje vivendo sob o bolsonarismo, certamente muitas desgraças estariam acontecendo. O 'Ainda Estou Aqui' jamais teria sido produzido e talvez eu estivesse preso ou exilado", ressalta.
Presença requisitada na Sorbonne Nouvelle
Marcelo Rubens Paiva está em Paris para participar de um encontro na universidade Sorbonne Nouvelle nesta sexta-feira, dentro do ciclo "Primavera Brasileira". Os ingressos para o evento estão esgotados há semanas. Segundo o co-diretor e idealizador do ciclo, o professor Leonardo Tônus, a vinda do autor de "Ainda Estou Aqui" foi um pedido dos próprios universitários.
"Para a minha vida literária, é algo inédito", comenta Marcelo. Segundo ele, a solicitação ocorre por dois motivos: o imenso sucesso do filme de Walter Salles na França, onde o longa-metragem registrou a maior bilheteria na Europa, e o interesse de jovens acadêmicos pelas consequências de regimes autoritários no mundo.
"Os estudantes estão muito preocupados e muito interessados nesses temas recorrentes atualmente em relação a regimes autoritários, à luta democrática, ao passado, à memória, à abertura de arquivos", afirma. "Esse tipo de assunto está despertando na juventude do mundo todo, inclusive do Brasil, muito interesse para ser debatido", reitera.
Além disso, para Marcelo, a curiosidade do público francês pelo filme, que segue em cartaz no país quase três meses após a estreia, se deve à universalidade da trama, que classifica de feminina e feminista. "É sobre uma mulher, com cinco filhos, injustamente viúva, e que tem que lutar para se reconstruir, educar seus filhos e recuperar sua dignidade", resume. "Se você olha hoje o que acontece com as pessoas na Hungria, em Gaza, em Israel, agora, nesse momento nos Estados Unidos, onde há gente sendo pega na rua para ser expulsa, na Argentina, no Irã, e em muitos outros países autoritários, você vê que o tema do filme não morre", completa.
Já sobre a polêmica matéria do jornal Le Monde, onde a atuação de Fernanda Torres foi classificada de "monocórdica" por um...
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Filme sobre a correspondência de Marcia Tiburi e Jean Willys no exílio é lançado em festival francês
3/27/2025
O longa-metragem "Hoje longe, muitas léguas", do diretor carioca Dado Amaral, estreou nesta semana no Festival do Filme Documentário de Paris, conhecido entre os franceses como Le Cinéma du Réel (o cinema da realidade, em tradução livre). Com o título em francês "Chansons d'exil", Amaral leva às telas a correspondência entre a filósofa e escritora gaúcha Marcia Tiburi e ex-deputado federal baiano Jean Wyllys, obrigados a se exilar na Europa devido às perseguições da extrema direita no Brasil.
Marcia Tiburi e Jean Wyllys leem as cartas que trocaram durante os quatro anos e meio em que se viram desterrados do Brasil, após a vitória de Jair Bolsonaro nas eleições presidenciais de 2018. Eles só retornaram ao Brasil em meados de 2023.
O périplo da ex-candidata do Partido dos Trabalhadores ao governo do Rio de Janeiro, para escapar das campanhas de ódio e das ameaças de morte de extremistas de direita, começou nos Estados Unidos, depois houve a mudança para Paris e ainda um período em Berlim. Jean Wyllys, deputado pelo PSOL, que já vivia sob escolta policial desde o assassinato da vereadora Marielle Franco, em março de 2018, mudou-se para Barcelona.
Apesar da distância entre as duas cidades, os dois amigos se apoiaram nos momentos dolorosos do desenraizamento e questionaram o revisionismo que impregnou boa parte da sociedade brasileira, trinta anos depois do fim ditadura de 1964-85.
Em entrevista à RFI, o diretor Dado Amaral conta que conheceu Marcia Tiburi em uma reunião na capital francesa, apresentados por um amigo em comum. Na época, Dado sabia que Jean Willys tinha sido obrigado a renunciar ao seu terceiro mandato de deputado federal, devido aos ataques homofóbicos e à perseguição de bolsonaristas. Mas foi apenas na convivência com a escritora e filósofa que o cineasta se deu conta da gravidade da onda fascista na qual o Brasil foi arrastado.
O projeto do documentário nasceu antes da publicação do livro epistolar "O que não se pode dizer", de Marcia e Jean, lançado pela editora Civilização Brasileira. O filme tem a sabedoria de omitir nomes de generais golpistas, de líderes de movimentos fascistas e de fazer referências à família Bolsonaro. Concentra-se em levar à tela a torrente de emoções e revolta que marcaram os anos de exílio dos dois protagonistas.
Relato sóbrio
Com 1'17 minutos de duração, o público internacional tem a possibilidade de saber mais sobre esse período de retrocesso histórico do Brasil. Com sobriedade, Marcia e Jean descrevem os efeitos do fascismo em suas vidas. Falam de assédio moral, medo, vidas ameaçadas, trabalho e relações pessoais sacrificados, dificuldades financeiras, exílio, depressão e da imensa solidão no estrangeiro.
"Fiquei muito orgulhoso de estar nesse festival, que está em sua 47ª edição", destaca o cineasta. "Chansons d'exil" foi apresentado na sessão especial dedicada a produções de temática política contemporânea.
O longa começa com uma bela imagem externa de um cedro do Líbano plantado no Jardim Botânico de Paris (Jardin des Plantes), perto de um dos apartamentos onde Marcia Tiburi morou na capital francesa. A árvore, trazida de seu país de origem, foi plantada no jardim parisiense em 1734. Na terra nova, o cedro libanês criou raízes fortes: resistiu à queda da Bastilha (1789), à Primeira Guerra Mundial (1914-18), à ocupação nazista na Segunda Guerra (1938-45) e segue firme desafiando ameaças. Um símbolo de esperança.
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"Rezbotanik": curta-metragem de diretor mineiro tem estreia mundial em Paris
3/26/2025
O curta-metragem "Rezbotanik", com roteiro e direção do cineasta mineiro Pedro Gonçalves Ribeiro, teve sua estreia mundial nesta semana na 47ª edição do Festival do Filme Documentário de Paris, conhecido entre os franceses como Le Cinéma du Réel (o cinema da realidade, em tradução livre). O filme nasceu para contar a história de uma planta imigrante no Jardim Botânico de Lisboa, mas acabou revelando a potência da artista transgênero Rezmorah, de dupla nacionalidade brasileira e portuguesa.
A ideia inicial de Pedro Gonçalves Ribeiro era falar sobre uma árvore amazônica trazida pelos colonizadores portugueses de presente para o imperador. Porém, plantada no Jardim Botânico de Lisboa, a guapeba nunca deu flores.
Em entrevista à RFI, o cineasta mineiro conta ter conhecido a performer Rezmorah logo que chegou em Lisboa. Pedro foi "fisgado" por ela, fascinado pela intensidade com que Rezmorah encara a vida e sua transgeneridade. O cineasta e a artista trans têm em comum um forte laço com a natureza, com a liberdade, e compartilham a incompreensão de um país que destruiu o pau-brasil, que avança sem parar sobre os seus biomas, a ponto de promover uma poda constante, agressiva culturalmente, castrante, que impede os seus indivíduos de dar frutos.
"O filme e o roteiro são meus, mas tudo foi muito construído em conjunto com ela", afirma o diretor mineiro. A câmera segue os passos de Rezmorah pelo jardim, às vezes em movimentos frenéticos, enquanto a artista reflete sobre a vida. A protagonista vê o sexo como o oposto da morte. O parque é um refúgio "para um descarrego" no fim de longas noites em que se deixou consumir pelo fogo, até se esvaziar. Em meio às árvores e aos passarinhos, que a reconhecem, tudo coexiste. Há um equilíbrio no pluralismo da floresta e também em Rezmorah.
O curta experimental foi filmado em película com uma câmera Super 8 e aborda uma dualidade de Rezmorah. "Ela é ao mesmo tempo colonizadora e colonizada, e eu acho que a própria condição dela como pessoa queer, transgênero, trinária, como ela se define, tudo isso tem um reflexo também na natureza", explica o diretor e roteirista. "É um filme que fala de um jardim em Lisboa do ponto de vista brasileiro", conclui.
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“Manas”, de Marianna Brennand: ficção que traz à tona histórias reais de incesto e pedofilia na ilha de Marajó
3/23/2025
O choque e o horror do incesto e da pedofilia por meio da sutileza. Em “Manas”, primeiro longa-metragem de ficção de Marianna Brennand, a cineasta aborda a temática das agressões sexuais de crianças sem mostrá-las de forma explícita. A obra, que estreia nesta quarta-feira (26) na França, foi uma das escolhidas para abrir a 37ª edição do festival Cinélatino, em Toulouse.
Daniella Franco, enviada especial da RFI ao Cinélatino
Marcielli é uma garota de 12 anos que leva uma vida pacata e feliz junto aos pais, dois irmãos e irmãs em uma palafita na ilha de Marajó, no Pará. Entre a imensidão da floresta e das águas do rio Tajapuru, ela vê seu cotidiano de aventuras vir mundo abaixo a partir de sua primeira menstruação. A passagem da infância à adolescência a leva a ser intimada a dividir a cama com o pai, que também a obriga a participar de repentinas sessões de caça junto a ele, onde as agressões têm início.
Marcielli terá o mesmo destino da irmã mais velha, que depois de ser vítima de violências sexuais, deixou o lar por meio de um casamento para nunca mais voltar. Mas a protagonista de "Manas" vai lutar para que sua história não seja perpetuada. Nessa batalha pelo fim do seu martírio, também é explorada sexualmente fora do ambiente familiar, onde o silêncio da mãe, grávida, e o do irmão mais velho, é inabalável.
Em entrevista à RFI, Marianna Brennand revela que a história de Marcielli, apesar de ser ficção, é baseada em relatos que colheu ao longo de dez anos de produção de “Manas”. A ideia do longa teve origem em um encontro com a cantora Fafá de Belém, natural do Pará, que a apresentou a uma crueldade que jamais imaginou que pudesse existir. No início, a intenção era realizar um documentário, mas a cineasta teve de repensar seu objetivo.
“O filme aconteceu como ficção porque logo no início da pesquisa eu entendi que seria impossível para mim contar essa história de uma maneira documental”, diz a cineasta. “Isso significaria colocar mulheres e crianças que foram vítimas de traumas e de violências muito grandes na frente da câmera para recontar essas histórias. Isso faria com que elas vivessem esses abusos”, reitera.
Sem cenas de violência sexual
Outra escolha que Marianna classifica de “balizadora” neste trabalho foi jamais exibir qualquer cena de agressão sexual. “Como mostrar o que ninguém quer ver e o que não deveria acontecer?”, questiona. “A partir do momento em que eu mostro essa violência eu estou quase autorizando ela acontecer”, justifica.
A cineasta salienta que sua intenção não era “falar da violência gerando mais violência, mas a subtraindo”. Por isso, a escolha de Marianna foi abordar a cruel realidade vivida pela personagem Marcielli por meio de elementos cinematográficos que não tornassem as agressões sexuais visualmente explícitas.
Para a diretora, era essencial que a história fosse contada priorizando a dignidade das mulheres e seus corpos. “O ‘Manas’ mostra que é possível tocar na mais terrível das realidades com delicadeza e com ética, respeitando a nossa existência”, ressalta.
Um filme real e universal
A cineasta conta à RFI que quando deu início a seu trabalho, acreditava que os dramas vividos por meninas e mulheres na ilha de Marajó eram um problema local e que sensibilizariam um público limitado, essencialmente brasileiro. Mas, aos poucos, sua própria visão mudou.
“Através de uma história que é muito específica, dentro de um contexto geográfico e socioeconômico particular, a gente fala a todas as mulheres”, diz. “Infelizmente é raro você encontrar uma mulher que não tenha sofrido algum tipo de violência ao longo da vida. Então me interessava muito que através da Marcielli, do despertar e busca de liberdade para sair dessa situação, a gente pudesse também falar com outras mulheres”, complementa.
Além de uma narrativa e um roteiro impactantes, a cineasta também contou com um elenco brilhante, capaz de trazer ainda mais veracidade ao drama. Por isso Marianna fez questão que os atores mirins...
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“O cinema é uma arma que muda corações e mentes”, diz Karim Aïnouz, convidado de honra do Cinélatino, em Toulouse
3/22/2025
O cineasta cearense Karim Aïnouz é o convidado de honra da 37ª edição do festival Cinélatino, em Toulouse, no sudoeste da França. O evento realiza uma retrospectiva de sua filmografia e exibe grande parte de seus longas, com sessões seguidas de debates.
Daniella Franco, enviada especial da RFI a Toulouse
“Você diz que tem origem da Cabília, mas você não parece ser argelino, parece bem brasileiro”, observa a espectadora após a projeção de “Marinheiro das Montanhas”, em Toulouse, primeiro filme da retrospectiva de Karim Aïnouz a ser exibido nesta edição do festival Cinélatino.
Em plena manhã de sábado, a sala de cinema está quase lotada, e o público se recusa a ir embora depois do encerramento do filme. Os espectadores querem interagir com o cineasta brasileiro, muitos deles sobre a temática do filme e a busca das origens de Aïnouz no norte da África, outros sobre o sentimento de culpa da França décadas após a guerra da Argélia. Mas diante do tom acolhedor do cineasta, a conversa toma um rumo descontraído.
“Eu encontrei com você uma vez em Cuba, você me disse que estava indo para uma festa e nem me convidou”, lança outra participante do debate, levando a sala às gargalhadas.
Com o mesmo tom descontraído, Aïnouz conversou com a RFI, confessando estar cansado após ter acordado às 4h da manhã em Berlim e ter feito uma conexão em Bruxelas para chegar a tempo do primeiro debate em Toulouse, mas destaca estar muito feliz de voltar ao festival que acolheu seu trabalho desde o início de sua carreira. Foi aqui, na capital da região sudoeste da França, que o diretor cearense recebeu o principal prêmio do Cinélatino em 2010, junto com Marcelo Gomes, por "Viajo porque preciso, volto porque te amo".
Quinze anos e quase dez longas-metragens depois – muitos deles premiados nos maiores festivais mundo afora – Karim Aïnouz retorna a Toulouse e encontra espectadores animados a debater sobre a obra um tanto autobiográfica, diário de sua primeira viagem à Argélia em 2019. Coincidentemente, sua última vez no Cinélatino ocorreu por ocasião do lançamento de “Marinheiro das Montanhas”, em 2022.
“Toulouse é uma cidade muito acolheradora, tem um público muito curioso sobre o cinema latino-americano. É bonito estar em lugar onde as pessoas de fato conhecem o trabalho da gente. O festival criou uma cultura importante, de apreciação do cinema latino-americano, então é um prazer e uma honra estar aqui”, diz.
Contar histórias de impacto
“Tem outro lado que você se sente um pouco velho”, ri, ao falar sobre a retrospectiva de sua carreira realizada no Cinélatino. Aos 59 anos, Karim Aïnouz esbanja energia e criatividade, planejando “de forma mais livre” o futuro de sua trajetória na Sétima Arte.
“Eu fico muito feliz de olhar para trás e ver que foram muitos anos, mas foram muitos filmes. Então, tem a sensação de você estar no mundo e estar ativo, no sentido de estar contando histórias que têm impacto e que de fato fazem diferença”, diz.
Em Toulouse é visível o efeito de seu trabalho, tanto pela emoção do público diante de suas obras quanto pela influência que Aïnouz exerce sobre as jovens gerações de cineastas que participam do festival e não poupam elogios ao diretor cearense.
Para Aïnouz, essa é a força do cinema, uma arte que define como “uma arma que muda corações e mentes”. “Não é uma arma de destruição, mas de transformação”, reitera, lembrando o período difícil que o setor cultural brasileiro viveu com o governo Bolsonaro, mas superou.
Para os próximos anos de uma carreira em que Aïnouz pretende dobrar a quantidade de filmes que dirigiu até agora, os planos não são poucos. O cineasta revela que pretende abrir “um espaço de celebração” em Berlim, cidade onde está radicado. Além disso, por meio de sua produtora, a Cinema Inflamável, também quer colaborar com cineastas jovens e investir mais em cinema de gênero.
Segundo ele, essa liberdade permite projetar o futuro de sua carreira "de forma não-linear e mais irreverente”. Por isso, Aïnouz se...
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“Primavera Brasileira” na Sorbonne Nouvelle visa “reformular imagem” do Brasil na França, diz organizador
3/21/2025
A primavera chega à França e com ela um convite para uma imersão cultural, social e artística no Brasil contemporâneo. O evento a Primavera Brasileira da Universidade Sorbonne Nouvelle de Paris acontece até junho de 2025 e integra a temporada cruzada França-Brasil, celebrada este ano. A codireção e a organização é do professor de Literatura Brasileira da Sorbonne Nouvelle, Leonardo Tonus, para quem o evento visa “reformular a imagem do Brasil”, que ficou um pouco desgastada nos últimos anos.
A “Primavera Brasileira” é um evento “completamente novo”, sem ligação com a "Primavera Literária Brasileira", que Leonardo Tonus organizou em outra instituição universitária francesa de 2014 até a pandemia. “A Primavera Literária Brasileira era um evento itinerante, este não. Ele é sobretudo focado dentro da universidade, feito para os estudantes”, compara.
O público em geral também poderá assistir à vasta programação que “não abarca somente a literatura, mas outros eventos culturais”, como espetáculos de dança e música, aula de gastronomia, exibições de filmes, conferências e encontros com artistas e escritores brasileiros. Basta reservar um lugar no site do evento.
A Primavera Brasileira começou no início de março, com encontros com os escritores Godofredo de Oliveira Neto, da Academia Brasileira de Letras, e Rita Carelli. Até junho, “grandes nomes da cultura brasileira” vão passar pela Sorbonne Nouvelle.
Marcelo Rubens Paiva
Um dos destaques da programação será a presença de Marcelo Rubens Paiva, cujo livro foi o guia do roteiro do oscarizado “Ainda Estou Aqui”. Os ingressos para o encontro com o escritor, em 28 de março, já estão esgotados
A participação de Marcelo Rubens Paiva foi um pedido dos alunos de Leonardo Tonus. “Este ano estou trabalhando com os estudantes sobre a relação entre artes e ditadura e (esse) pedido surgiu em sala de aula”, conta o professor da cátedra de Literatura Brasileira da Sorbonne Nouvelle.
Outra colaboração importante dos estudantes foi o cartaz do “Printemps Brésilien”, idealizado pela estudante Melissa Giola, vencedora de um concurso realizado em toda a região metropolitana de Paris que contou com a participação de mais de 50 propostas. “Eu acho importante sempre pensar um projeto não como um festival clássico, como nós já temos vários aqui na França ou no Brasil, mas sobretudo como um projeto pedagógico”, ressalta Tonus.
Temporada cruzada
A “Primavera Brasileira” integra a programação da temporada cruzada França-Brasil, celebrada este ano dos dois lados do Atlântico. O organizador lembra que inicialmente “a ideia surgiu dentro da universidade”, e que só depois entrou em contato com os organizadores da temporada cruzada, de quem recebeu “todo o apoio institucional”. Mas “o apoio financeiro foi obtido de outras maneiras”, afirma.
Radicado na França há quase 40 anos, Leonardo Tonus ensina literatura brasileira nas universidades do país há 25 anos. Desde então, já participou de vários eventos que celebraram a cultura brasileira, como o primeiro ano do Brasil na França em 2005 ou as homenagens ao Brasil no Salão do Livro de Paris em 1998 e 2015.
Ele acredita que, de lá para cá, o olhar francês sobre o Brasil mudou. “Houve uma mudança, eu diria, radical no sentido de que deixamos de ser um pouco um país exótico, para ser um país, vamos dizer, mais para a contemporaneidade”, analisa.
Para Tonus, que foi um dos curadores do Salão do Livro de Paris em 2015, esses eventos de divulgação da cultura brasileira na França e da francesa no Brasil continuam pertinentes.
Fazendo um paralelo com um grande evento realizado na França no final dos anos 1980, logo após o fim da Ditadura Militar, ele diz que a atual temporada cruzada, decidida pelos presidentes Emmanuel Macron e Luis Inácio Lula da Silva, visa “reformular essa imagem do Brasil”. Segundo o professor, “como no período ditatorial, nos últimos anos, nós sofremos um pouco o desgaste da nossa imagem de marca”, fazendo referência ao governo...
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‘Baby’, de Marcelo Caetano: 'uma história que só poderia se passar em SP, mas que pode ser entendida no mundo todo'
3/18/2025
O segundo longa de Marcelo Caetano, “Baby”, estreia nesta quarta-feira (19) no circuito comercial da França. O premiado trabalho já conquista elogios da crítica e alavanca ainda mais a fase triunfal que vive o cinema brasileiro ao levar para as telonas o drama da rejeição e do abandono vividos por pessoas LGBTQIA+.
“O que você está fazendo na rua a essa hora? Fugiu de casa?”, pergunta o personagem Ronaldo (interpretado por Ricardo Teodoro) a Wellington (João Pedro Mariano), vulgo Baby. “Eles que fugiram de mim”, responde o protagonista da trama, um jovem de 18 anos, abandonado pelos pais enquanto cumpria pena em um centro de detenção juvenil em São Paulo.
A história fictícia do adolescente paulistano é “muito brasileira”. “É uma história que só poderia se passar em São Paulo, mas ela é contada de uma forma que pode ser entendida no mundo todo”, avalia Marcelo Caetano, que já viajou por boa parte do planeta com o filme.
No centro da trama, está a relação de Wellington com Ronaldo, profissional do sexo na faixa dos 40 anos que, na ausência do pai e da mãe do adolescente, vai ser tornar seu companheiro, guru e encarnar a figura paterna ausente. “Deixa de ser baby, vai”, recomenda Ronaldo em determinado momento do filme, sem saber que o apelido será incorporado pelo adolescente junto a homens mais velhos com quem se prostitui.
Como traduzir uma história tão comum ao público brasileiro a espectadores internacionais foi um desafio para Caetano, que lembra que o filme é uma coprodução francesa e holandesa. “Eu acho que o que eu aprendi um pouco no ‘Baby’ e que talvez no primeiro filme [Corpo Elétrico, de 2017] eu não soubesse muito como fazer, é que a gente tem que traduzir essas características da identidade nacional brasileira em linguagem cinematográfica”, diz. “A linguagem cinematográfica é universal e tem uma capacidade de alcance muito forte. A gente não precisa fazer concessões à cultura brasileira” para que o público estrangeiro compreenda a obra, resume.
Na França, onde “Baby” será exibido em 25 cidades, e onde João Pedro Mariano levou o prêmio de melhor ator na Semana da Crítica do Festival de Cannes, as pré-estreias foram marcadas pela surpresa do público pela escolha do clássico “Laissez-moi danser”, de Dalida para a trilha sonora. “Em todas as cidades onde eu estou indo apresentar o filme, me perguntam: ‘as pessoas escutam Dalida no Brasil?’”, ri.
“Os franceses não conseguem imaginar o alcance que a Dalida teve especificamente nessa geração gay com mais de 60 anos”, explica, referindo-se à sequência em que Wellington dança ao som desta icônica canção em um clube no centro de São Paulo, frequentado por homossexuais mais velhos. “Eu adoro como os franceses reagem, porque eles pensam que a escolha foi feita por causa da co-produção com a França. Mas foi justamente porque tinha um comentário importante sobre a diferença de idade entre o Baby e o personagem que ele conhece nessa noite”, diz.
Expandir o conceito de família
Rejeição, exclusão e abandono da própria família são situações comuns da comunidade LGBTQIA+ em todo o mundo. Mas, ao mesmo tempo, Caetano também explora em “Baby” a criação de laços e vínculos que mostram que “a solidão não é uma opção”.
“Eu acho que a gente está vivendo no Brasil uma disputa muito forte em relação ao conceito de família. Existem grupos conservadores, que eu posso até chamar de extrema direita, que estão tentando cristalizar a família numa só possibilidade: a família biológica, sanguínea, pai, mãe e filhos heterossexuais cis”, ressalta.
Por isso, para o cineasta, é preciso que o Brasil torne mais amplo o conceito de família. “Tem as famílias monoparentais, das mães que criam os filhos sozinhas, as famílias homoafetivas, de duas mulheres, de dois homens ou de duas pessoas trans, e você tem famílias de amigos, como a família de ‘voguing’ do Baby. Esse tipo de criação de família vai responder a muitas demandas de trabalho, econômicas, afetivas”, reitera.
Caetano também salienta a...
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Pesquisador publica livro na França revelando as raízes do “federalismo tropical” brasileiro
3/18/2025
O livro "Municípios e províncias no Brasil no tempo das monarquias: as origens de um federalismo tropical", de Daniel Magalhães Costa, recebeu o prêmio científico da editora Harmattan, que acaba de editá-lo na França. A obra, publicada por enquanto apenas em francês, é fruto de uma tese de doutorado em Ciência Política defendida na Universidade Paris Panthéon-Assas. O “federalismo tropical” seria um legado do conceito de “monarquia federativa” desenvolvido pelo autor.
O mineiro Daniel Magalhães da Costa é radicado na França e trabalha na Universidade Paris Panthéon-Assas, onde concluiu a tese de doutorado em 2022. A obra apresenta uma análise detalhada da administração territorial brasileira antes de 1889, isto é, antes da Proclamação da República e da adoção do sistema federativo brasileiro, mas também faz ponderações sobre o regime atual.
Desconstruir uma representação que entrou para o imaginário coletivo foi o ponto de partida do trabalho. Daniel Magalhães da Costa questionou a ideia de que o Império do Brasil, fundado após a independência de Portugal em 1822, era um estado unitário e centralizado como dita a historiografia clássica, com o imperador e o Parlamento dominando todas as províncias.
Ele pondera que se hoje, em 2025, a estrutura administrativa existente “ainda não consegue atingir a integralidade do território brasileiro, me parecia um pouco estranho que se pretendesse que isso fosse possível já no século 19”.
Ao propor uma nova leitura sobre a formação do Estado brasileiro, o autor mostra um país que, desde o século 19, tinha elementos de descentralização e autonomia local. “Eu tentei colocar em valor a ideia de que, sim, existia um estado central, existia uma administração central, mas isso não implicava a inexistência de outros poderes legislativos, seja a nível local ou provincial”, argumenta.
Lembrando a imensidão do território, na época pouco povoado, ele partiu da premissa de que o Brasil “é um país continental, impossível de ser governado a partir de um único ponto, e que é necessário que haja um certo espaço de liberdade de ação nos territórios mais próximos das populações, nos municípios ou nas províncias”, que os teóricos chamam de "autonomia", aponta o autor.
Monarquia federativa
O conceito de "monarquia federativa" surge como um elemento fundamental da tese. Costa explica que “durante essa pesquisa insistiu nas continuidades históricas”, e isso desde o Brasil Colônia, apresentado como um período bastante fragmentado. “As conclusões que cheguei foram que, na verdade, existem muito mais continuidades do que rupturas nessa história institucional brasileira e que a forma como o Brasil se constituiu em 1889, quando foi proclamada a República e quando foi adotada oficialmente a forma federal de estado, não foi uma completa inovação em relação ao que se praticava antes.”
Outro aspecto central de sua pesquisa é a continuidade territorial ao longo da história brasileira. Os mapas apresentados no livro revelam que os estados atuais correspondem, em grande parte, “às antigas províncias imperiais que, por sua vez, correspondem às capitanias do período colonial”.
A permanência, ou a continuidade sem ruptura, também é perceptível em relação às elites que comandavam o país. “As elites regionais entenderam, na virada do século 18 para o século 19, que juntas tinham interesses comuns e que juntas seriam mais fortes”, indica.
Legado
Para Daniel Magalhães Costa, o legado do regime imperial para o federalismo brasileiro é inegável. O Brasil, embora não fosse formalmente um Estado federal no século 19, já operava com uma estrutura que concedia o mesmo estatuto jurídico às províncias, independentemente de seu tamanho ou importância econômica. Essa caracterização permaneceu na transição para a República, moldando a organização política do país.
“O Brasil era e continua sendo composto hoje por estados, antes por províncias, bastante desiguais. Apesar dessas desigualdades, que já existiam e continuam existindo...
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Escritor e imortal da ABL, Godofredo de Oliveira Neto fala sobre a democratização da literatura
3/17/2025
O escritor, professor e imortal da Academia Brasileira de Letras, Godofredo de Oliveira Neto, esteve em Paris para uma série de eventos acadêmicos e conversou com a RFI sobre literatura brasileira, novos projetos, cultura e mudanças na ABL.
Godofredo de Oliveira Neto participou, na capital francesa, de eventos universitários do Ano do Brasil na França e falou sobre a popularização da cultura brasileira pelo mundo, especialmente por conta de “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, que ganhou o Oscar de melhor filme em língua estrangeira. O autor, que publicou em 2011 “Amores Exilados”, que trata da mesma temática, disse que viu o interesse pelo livro crescer por conta da popularidade da obra protagonizada por Fernanda Torres.
“Graças ao filme, toda uma época do Brasil, dos anos 70, veio de novo para a cena iluminada. (...) O livro estava numa segunda edição. Há uma proposta agora para uma terceira edição, mas o interesse é muito grande. Eu tenho recebido muitos convites para falar sobre o livro. (...) Acho que é um momento para se começar do zero e entender o que aconteceu, com as críticas internas, externas, com as avaliações das estratégias políticas, e ver também as dores e os sofrimentos”, disse.
Perguntado sobre o processo de criação de livros que potencialmente serão traduzidos e lançados em outros países, o escritor contou que, quando escreve, direciona o foco para o público brasileiro, mesmo que a obra acabe sendo lançada em outros idiomas, como é o caso também de “O desenho extraviado de Hieronymus Bosch”, que foi publicado na França antes de ser lançado no Brasil, mas que por aqui ganhou o nome de “Esquisse”.
“Penso sempre no Umberto Eco e no prefácio de ‘O nome da rosa’, em que ele diz uma coisa interessante: o escritor escreve sempre pensando no leitor ideal. E analisando essa frase, eu acredito que no meu caso eu escrevo pensando nos brasileiros”.
Oliveira Neto comentou ainda sobre seu último livro lançado, que fala da mitologia indígena. “Ana e a margem do rio” é narrado por uma menina que tenta passar para o papel, de forma escrita, os mitos que ouvia da avó indígena. A obra é voltada para o público infanto-juvenil.
Godofredo, que também é autor da fábula "Oleg e os clones", diz que é preciso “sair de si", principalmente quando se escreve para jovens ou crianças. "Esse é um conselho que eu dou para os jovens escritores e escritoras, que é se deixar levar e criar um narrador ou uma narradora que não é você, senão todos os interditos da vida vão te impedir de escrever”, aponta.
Vida de imortal
Em 2022, Godofredo de Oliveira Neto foi eleito para ocupar a cadeira de número 35 da Academia Brasileira de Letras (ABL). Ele conta com orgulho como tem sido a vida de imortal.
“Foi uma grata surpresa, estou encantado. Acho que a ABL está em um momento muito bom de diálogo com a sociedade brasileira, uma abertura imensa. Não que não tenha havido antes, mas agora isso se potencializou. A participação de mulheres está aumentando, a programação cultural é intensa, com muitos convidados. (...) Não é uma eleição minha para mim. Eu tento fazer jus aos leitores e leitoras da minha obra”, disse ele, que prepara um novo livro.
O autor conta que desde “O desenho extraviado de Hieronymus Bosch”, fez uma mudança de forma na arquitetura do romance com relação aos anteriores, que se aplica a esse novo projeto. “Comecei uma mudança, digamos, estilística, da forma, e esse que estou escrevendo vai nessa mesma linhagem, quanto à sua formatação e sua arquitetura”, explicou.
Literatura inclusiva
Por fim, o autor opinou ainda sobre as mudanças positivas que vem observando na literatura brasileira que, para ele, está evoluindo de forma mais inclusiva.
“A literatura brasileira deu um salto muito grande, abriram-se novas editoras, produzindo mais. É uma fase muito rica e mais representativa da nação brasileira, fugindo um pouco do eixo Rio – São Paulo. A temática de trazer para frente, no protagonismo, franjas imensas da sociedade...
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Rita Carelli recebe prêmio na França pela versão francesa do romance “Terrapreta”
3/14/2025
“Terrapreta” foi traduzido por Marine Duval e publicado em 2024 na França pela editora Métailié. A obra foi recompensada pelo Prix Caméléon 2025 (Prêmio Camaleão) da Universidade Jean Moulin Lyon 3. Rita Carelli veio à França para receber a recompensa e para participar de uma série de eventos que integram a programação da temporada cruzada Brasil-França.
O Prêmio Camaleão recompensa anualmente, desde 2014, um romance estrangeiro traduzido para o francês. A escolha é feita por um júri composto por estudantes da Universidade de Lyon 3. “Terrapreta” (Terre Noire em francês), traduzido por Marine Duval, concorria com dois outros livros brasileiros: “Torto Arado”, de Itamar Vieria Junior, e “Preto e Branco”, de Fernando Molica.
A entrega da premiação aconteceu na última terça-feira (11), durante o Encontro Internacional da Francofonia, que este ano homenageou o Brasil e a língua portuguesa.
“Terrapreta”, que acaba de ganhar na França uma versão em livro de bolso, é um romance de formação que se passa entre São Paulo, o Alto Xingu e Paris. O livro conta a história de uma adolescente que viu a sua vida alterada subitamente depois da morte inesperada da mãe e vai morar com o pai antropólogo na Amazônia. Em contato com a cosmovisão dos indígenas, a jovem se transforma.
Rita Carelli acredita que todas essas camadas do livro atraíram os estudantes que leram e recompensaram “Terrapreta”. “O fato de ser uma personagem jovem, passando por um processo de luto, fazendo a sua passagem da adolescência para a vida adulta, tudo isso talvez tenha contribuído. Mas acredito que a novidade deles entrarem em contato com esse mundo indígena do Alto Xingu, tudo isso trouxe para eles uma novidade muito grande que os deixou muito interessados, muito surpresos”, conta.
Projeto político
Os estudantes de Lyon não foram os únicos que ficaram impressionados com o romance de Rita Carelli. A obra concorre a um outro prêmio estudantil, o Fronteiras da Universidade de Lorraine, cujo vencedor será anunciado em 5 de abril.
“Ter essa apreciação dos estudantes me deixa muito feliz porque esse livro é um projeto também político, posso dizer assim, sobre esse desejo meu de talvez diminuir minimamente o tamanho da ignorância que a gente ainda conserva sobre as populações autóctones no Brasil, suas tradições, o seu jeito de viver e de estar presente no planeta”, pondera.
A autora indica que também aborda essa “ignorância” com o público francês. “Eu brinco com os estudantes, com o público francês, que se eles acham que esse mundo é muito exótico, que eles saibam que para os brasileiros também é.” Ela ressalta a “herança de um projeto político de apagamento dessas culturas” no Brasil, mas acredita que “o interesse está crescendo sobre esses temas, sobre essa presença indígena tão forte no Brasil, tão poderosa”.
Carelli, que coescreve livros com Ailton Krenak, colabora com essa tendência. Mas, segundo ela, essa onda é gerada especialmente com “a produção de autores, estudantes, artistas, cineastas, doutorandos e mestrandos indígenas que estão produzindo seus conteúdos e fazendo essas pontes entre esses dois mundos”.
Ponte França-Brasil
Parte da família Rita Carelli é francesa e ela tem uma relação forte com o país, onde morou durante um tempo para estudar mímica. O tio da autora, Mario Carelli, foi professor da Sorbonne e é autor de um livro seminal “Culturas Cruzadas”, sobre a história das trocas culturais entre a França e o Brasil. “Além de tudo, tem uma ancestralidade aí que estudava justamente essa relação tão próxima e profícua entre a França e o Brasil”.
Neste ano de 2025, os dois países voltam a celebrar essa relação histórica. Rita Carelli também está na França para participar de uma série de eventos da temporada cruzada Brasil-França. Depois de Lyon, participa de uma mesa redonda nesta sexta-feira (14) na Universidade Sorbonne Nouvelle-Paris 3, e no sábado (15) estará no Salão do Livro Africano, que este ano homenageia a literatura brasileira.
Rita...
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‘Uma Preta em Paris’: artista carioca lança 1° livro para inspirar mais mulheres negras periféricas
3/13/2025
A partir da história de como seus pais se conheceram, Isabelle Mesquita relata em "Uma Preta em Paris" como ultrapassou dificuldades financeiras ao lado da família na Pavuna, subúrbio do Rio de Janeiro, até conseguir realizar seu sonho de morar fora e fazer carreira na "cidade luz". A artista e designer de moda carioca apresentará sua obra na França no dia 16 de março no Salão do Livro Africano de Paris. Ela lançou seu primeiro livro no dia 31 de janeiro na Livraria da Travessa, no Rio, e já conta com premiação internacional.
Isabelle subirá ao palco em Genebra, na Suíça, no dia 21 de março para receber o Prêmio Talentos Helvéticos-Brasileiros, ao lado de outros escritores vindos do Brasil, Portugal, Espanha, França, Inglaterra e Itália homenageados no evento que gratifica autores de livros em português e francês que se destacam no cenário cultural dos países onde vivem.
Após conquistar prêmios na área da moda, negócios, design e até pesquisa científica, Isabelle Mesquita explica que a principal intenção de se lançar no mundo literário aos 36 anos é a representatividade: “Eu quero que mais pessoas da periferia, mais mulheres negras se vejam representadas na minha história, e que eu possa inspirar muito mais pessoas”.
“Na verdade, eu quis ampliar a minha voz através dessas experiências que passei, vinda da periferia, de toda a dificuldade de acesso que a gente tem, até chegar nessa capital do luxo, da moda, do prestígio que é a minha área de estudo, a minha área de atuação. Eu senti a necessidade de utilizar mais uma ferramenta artística, que é a literatura, para poder diversificar todas essas experiências e representar outras pessoas que vêm do mesmo lugar que eu”, conta.
A artista aponta que apesar das dificuldades de acesso e de trabalho como estrangeira e preta, não levou isso como uma barreira. “Eu fui avançando”, diz Isabelle, que hoje comanda seu espaço de artes plásticas no 20° distrito da capital francesa, o Isabelle Mesquita Studio.
Educação como modificadora de realidade
Além de contar, nas mais de 200 páginas de seu livro, sobre sua formação desde a sua alfabetização até seus estudos superiores internacionais, sempre incentivada pela família. Ela descreve como seus pais faziam todos os esforços possíveis para que ela e sua irmã mais nova pudessem ter um bom ensino. Isabelle também traz na obra relatos da sua estrutura familiar e nuances de comportamento de familiares que a instigaram a ser persistente e correr atrás seus projetos pessoais.
Para ela, independente de classe social, é importante ser permitido sonhar desde criança e vislumbrar objetivos, mesmo que muitas vezes sejam considerados impossíveis para uma menina negra, filha de faxineiros religiosos, criada na periferia. Seus desejos infanto-juvenis chegaram a ser chamados por pessoas do entorno de seu núcleo familiar de "mania de grandeza".
“Por que está querendo o bom? Você não pode querer o bom. Então eu falo disso, a gente tem o direito de sonhar grande, sim, e de almejar as coisas boas e de conquistar”, acredita a autora.
“Eu quis mostrar que a única saída que a gente tem vindo desse lugar é a educação. É só ela que pode nos dar a oportunidade de acender em algum lugar um pouco melhor do que realidade que a gente vive. Então eu falo muito sobre educação nesse livro. O quanto é importante a gente ter esse acesso, que ainda é muito difícil para muita gente”, descreve Isabelle Mesquita.
A artista plástica radicada em Paris, é atualmente pós-graduanda em História da África e da Diáspora Atlântica pelo Instituto Pretos Novos, no Rio. Em seu livro, ela se intitula "artilista", uma mistura de arte, moda e ativismo em prol da igualdade racial e social.
Salão do Livro Africano de Paris
"Uma Preta em Paris" já foi lançado em formato eletrônico e pode ser encontrado nas plataformas digitais. O projeto de lançar o livro em francês está em andamento, segundo a designer, que fará o lançamento na França da versão original em português, no Salão do Livro...
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Com Oscar histórico, participação do Brasil no Mercado do Filme de Cannes “será ainda mais potente”
3/12/2025
O ano de 2025 começou muito bem para o cinema brasileiro. Após as conquistas do Urso de Prata em Berlim, com o “Último Azul", de Gabriel Mascaro, e do histórico Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, com “Ainda Estou Aqui”, de Walter Salles, o Brasil será o convidado de honra do Mercado do Filme de Cannes, que acontece paralelamente ao badalado Festival de Cinema francês, no próximo mês de maio. “No rastro dessas vitórias", essa homenagem ao Brasil em Cannes “vai ser ainda mais potente”, acredita Joelma Gonzaga, secretária do Audiovisual.
A homenagem ao cinema brasileiro no Marché du Film de Cannes, confirmada na última semana de fevereiro, começou a ser negociada por Joelma Gonzaga desde 2023, logo depois que assumiu a Secretaria do Audiovisual do Ministério da Cultura do Brasil.
“Estava em Cannes, vendo a Espanha como país homenageado (do Mercado), e me veio um insight: 2025 seria os 200 anos das relações Brasil e França e o Brasil poderia ser o país homenageado. Então, comecei essa articulação que se materializa nesse ano de uma forma muito bonita”, diz à RFI.
Segundo ela, essa homenagem “chega no rastro dessas vitórias importantes para o cinema brasileiro. Isso significa que a participação do Brasil em Cannes vai ser ainda mais potente”.
A escolha do Brasil como convidado de honra em 2025 visa destacar o “dinamismo da indústria audiovisual brasileira, seus talentos e engajamento antigo a favor das coproduções internacionais”, de acordo com o comunicado do Mercado do Filme de Cannes.
A secretária do Audiovisual lembra que atualmente “uma média de 200 filmes” nacionais são produzidos por ano no Brasil e salienta que incrementar “as coproduções internacionais”, principalmente com a França, segundo maior parceiro do Brasil, é uma das expectativas dessa participação.
A homenagem também integra a programação da temporada cultural cruzada Brasil-França, que celebra os 200 anos das relações diplomáticas entre os dois países.
Edital aberto
O programa dessa participação brasileira ainda está sendo definido. Um edital para escolher os projetos e os participantes da delegação brasileira acaba de ser aberto, informa Joelma Gonzaga.
“Acabamos de lançar um edital exclusivo para levar uma grande delegação de profissionais brasileiros para estarem no Marché. O cenário está propício para que seja uma grande participação do Brasil”, indica.
O edital deve escolher cerca de 30 cineastas e produtores para propor projetos aos cinco programas tradicionais do Mercado do Filme: Producers Network, Cannes Doc, Cannes Next, impACT e Comunidade de Filme de Gênero. Haverá ainda uma delegação organizada pela ApexBrasil, a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, e alguns convidados especiais.
“A presença brasileira (será) bastante robusta”, antecipa a secretária do Audiovisual, sem revelar nomes. O ponto alto da programação será a cerimônia de abertura do Marché du Film, que acontecerá na Plage des Palmes, organizada em conjunto com o Brasil e que contará com a presença da ministra da Cultura, Margareth Menezes.
Maior evento do mercado cinematográfico do mundo
O Mercado do Filme de Cannes é considerado o maior evento profissional do setor cinematográfico do mundo. A presença do Brasil vem crescendo substancialmente nos últimos anos, principalmente depois da volta de Luiz Inácio Lula da Silva ao poder. No ano passado, essa participação foi 26% superior a 2023, informa o diretor do Marché, Guillaume Esmiol.
O Brasil será o quarto país convidado de honra do evento, depois da Suíça, Espanha e Índia. A programação do Marché deve ser revelada somente no final de março. A expectativa também é alta em relação ao anúncio da seleção oficial do Festival de Cinema de Cannes, previsto para meados de abril. A torcida é grande para que ao menos o último filme de Kleber Mendonça Filho, “O Agente Secreto”, seja selecionado.
O Marché du Film de Cannes acontece de 13 a 21 de maio e o Festival de Cinema de Cannes, de 13 a 24 de maio de 2025.
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Impacto de governos conservadores em lutas feministas não é novidade, diz representante da ONU Mulheres Brasil
3/7/2025
O empoderamento de jovens mulheres e meninas é o tema escolhido este ano pela ONU para marcar o Dia Internacional da Mulher, celebrado em 8 de março. Em um contexto de aumento de governos conservadores e de extrema direita que impactam nas lutas pelos direitos das mulheres, a representante interina da ONU Mulheres Brasil, Ana Carolina Querino, diz que existem pontos de resistência e “mensagens de esperança”.
Querino disse em entrevista à RFI que a organização se preocupa com todas as mulheres, mas vem destacando em suas últimas celebrações os diálogos intergeracionais. “Esse ano estamos colocando um foco principal nas mulheres jovens, adolescentes e meninas, pensando que elas serão o futuro dos nossos países e da nossa sociedade”, explica.
Em 2025, a Declaração e Plataforma de Ação da IV Conferência Mundial sobre a Mulher, conhecida como Declaração de Pequim, completa 30 anos. O documento, composto por 38 parágrafos com objetivos estratégicos em doze áreas prioritárias de preocupação relativas às mulheres, foi assinado por 189 governos.
“Esse continua sendo um documento visionário, que ainda simboliza e representa os caminhos a serem seguidos, as políticas e ações a serem adotadas para se realizar de forma plena os direitos humanos das mulheres e das meninas”, afirma Querino, ressaltando que, desde que foi assinado em 1995 até 2024, mais de 1500 reformas legais foram realizadas no mundo com o objetivo específico de fazer avançar a igualdade de gênero.
Ela lembra, no entanto, que ainda existem desafios em matéria de direitos legais e representação política. “Vemos que a proporção de mulheres nos parlamentos mais do que dobrou desde 1995, mais 3 em cada 4 parlamentares ainda são homens. Então a representação continua muito aquém”, diz.
Outro ponto que ela ressalta são as lacunas de participação no mercado de trabalho que está “praticamente estagnado há décadas. Globalmente as mulheres têm 63% de participação no mercado de trabalho e os homens, 92%. Por outro lado, as mulheres realizam duas vezes e meia mais trabalho não remunerado e de cuidado nas casas”.
Além disso, Querino destaca que existem desigualdades entre as mulheres. De acordo com um relatório da global da ONU, o casamento infantil diminuiu no mundo de 24% para 19% entre 2003 e 2023. Mas a redução foi três vezes maior nos lares mais ricos, quando comparados com os mais pobres. Essas desigualdades aumentam ainda mais se são consideradas outras interseccionalidades, por exemplo, entre mulheres brancas, negras ou indígenas, mostrando que os avanços não são homogêneos.
Extrema direita
Segundo representante interina da ONU Mulheres Brasil, o país teve mudanças significativas em matéria de direitos das mulheres, principalmente em termos de legislação. “Se formos olhar desde que [a Declaração de] Pequim foi adotada, temos a lei de cotas, que vem se aprimorando a cada ciclo eleitoral. Temos a lei Maria da Penha, cujo processo e o próprio desenho é reconhecido mundialmente. Temos a lei de violência doméstica, a lei do feminicídio, a lei da violência política, então temos muitos avanços que são dignos de nota”, enumera.
“Mas, ao mesmo tempo, temos desafios, porque esses ganhos acabam não sendo permanentes. Eu não falo só do Brasil. A gente está num momento de muito questionamento, que vem acompanhado, inclusive, da crise democrática na qual o mundo se encontra”, salienta.
Neste contexto, de acordo com Querino, o tema de gênero acaba sofrendo influências de processos de desinformação e outros fenômenos, como a crise climática e até mesmo a pandemia de Covid-19, que fizeram regredir a igualdade entre homens e mulheres. “Temos todo um combo que faz com que a gente precise estar constantemente reiterando a importância de se avançar e de se priorizar as ações relacionadas aos direitos das mulheres e a igualdade de gênero.”
Querino analisa que o aumento de governos conservadores e de extrema direita têm impacto nas lutas pelos direitos das mulheres, mas não são...
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Humorista suíço-brasileiro Bruno Peki está em alta na França fazendo piada até em português
3/6/2025
O jovem humorista Bruno Peki é considerado um dos talentos promissores, tanto na Suíça, onde ele nasceu, quanto na França. Ele já ganhou vários prêmios e desde setembro de 2024 participa semanalmente do tradicional programa de rádio “La Bande Originale” da France Inter sempre dando uma visão original e divertida sobre temas da vida cotidiana, política e cultural da França, da Suíça, mas também do Brasil, pois Bruno Peki tem dupla nacionalidade: suíça e brasileira.
Filho de pai suíço e mãe brasileira, Bruno Peki nasceu em Genebra, em 1999. Seu sobrenome verdadeiro é Hausler, mas ele teve de criar um nome de cena quando descobriu que tinha um homônimo na França, também humorista. “Não dá, né? Ter dois humoristas com o mesmo nome, na mesma área, na mesma língua”, explica. Escolheu então Peki que, apesar de ser escrito com “K”, os brasileiros logo associam com a fruta do cerrado.
“Eu estava em Brasília com a minha família e descobri o pequi. Eu gostei do nome. Em francês não é uma palavra que a gente conhece. Coloquei com K. Na verdade, as pessoas pensam que é meu nome. É só quando encontro um brasileiro e falo que o meu nome é Bruno Peki, ele fala: ‘ah, igual ao pequi?’ Aí eu tenho de contar tudo isso”, lembra, rindo.
Ao pesquisar sobre a sua vida, ficamos impressionados ao saber que ele fez durante vários anos parte de comédia de stand up da Nova Revista de Lausanne. Bruno Peki tem apenas 25 anos, mas já acumulou quase 8 de carreira. Ele subiu ao palco pela primeira quando tinha 17 anos, na escola, e se profissionalizou aos 19 anos.
Mas ser humorista não era seu sonho de criança. Bruno sonhava em ser atleta de Tênis de Mesa. Dos 10 aos 15 anos, participou de vários campeonatos na Suíça e chegou a ter uma boa classificação, mas se machucou e a vida virou.
“Quando eu descobri essa sensação de estar no palco, na frente do público, falei: ah, acho que essa é a minha área’. Eu gostei tanto, que virou meu sonho, objetivo e tudo”, afirma.
“Banda original”
Com seu humor irreverente, Bruno Peki vem conquistando um público cada vez maior. Ele já ganhou vários prêmios na Suíça e na França. Desde setembro, quando começou a fazer as crônicas semanais para “La Bande Originale”, ganhou ainda mais visibilidade. O tradicional programa da rádio pública France Inter, que reúne todos os dias humoristas profissionais que gozam de tudo e de todos, tem uma audiência de mais de 1,5 milhão de ouvintes.
Ele indica que fazer parte da "Bande Originale" era um sonho, e que além de mais visibilidade, isso também trouxe mais “credibilidade no meio profissional”. O humorista, que hoje divide sua vida em Paris e Genebra, fala em “um antes e um depois”, acrescentando que também tem “mais solicitações para fazer o (seu) show desde que trabalha nessa rádio”.
Autoirreverência
Nas crônicas para a France Inter, Bruno Peki é rápido, afiado, irreverente. Ele zomba muito dele mesmo, de sua origem suíça, de homem branco, jovem, hétero e europeu. “Como humorista, a primeira pessoa que você tem que brincar, que fazer piada, é você mesmo. Porque se você não tem esse senso de humor com você, é difícil de ter com os outros”, ensina.
Em sintonia com as pautas importantes de sua geração, o jovem sabe que tem “vários privilégios nessa sociedade”. Por isso, acredita ser “mais interessante brincar sobre esses privilégios e essas categorias de pessoas, do que fazer piada sobre as pessoas que já têm discriminação”.
Os clichês sobre a Suíça e o Brasil também não escapam do humor de Bruno Peki. A crônica sobre a volta de Neymar ao Santos, quando ele fala inclusive em português na rádio francesa, ainda diverte os internautas. “Eu amo fazer piada, em qualquer idioma: inglês, francês ou português”, garante, descartando um estilo humorístico tipicamente “suiço-brasileiro”.
Brasil, o país da piada pronta?
Bruno Peki segue a cena humorística brasileira e já se apresentou, fazendo piada em português, em dois shows do francês radicado no Brasil, Paul Cabanes. O jovem humorista...
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Conheça os “Brasis” representados nas coleções de arte contemporâneas de milionários franceses do luxo
3/4/2025
O sociólogo brasileiro Henrique Grimaldi é especialista nas relações entre a indústria da moda, principalmente de luxo, com o mercado de arte contemporânea. Em suas pesquisas, acabou descobrindo obras de artistas brasileiros que revelam “os Brasis representados” nessas importantes coleções privadas internacionais, como a do milionário francês François Pinault
Henrique Grimaldi é pesquisador, doutor em sociologia pela Unicamp e professor da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF). O interesse dele pela relação entre indústria da moda e arte contemporânea começou no mestrado. O momento de formação dos grandes conglomerados do luxo (LVMH, Kering et Richmont) no final dos anos 1980 foi o foco dessa primeira pesquisa.
“Na ocasião, eu me interessei por um grupo de jovens designers de moda que foram depois fagocitados pela indústria do luxo. Jovens estilistas de vanguarda que foram cooptados para insuflar nova energia nas antigas casas de costura francesas e italianas”, lembra. Ele faz referência a John Galliano, estilista da Givenchy e depois da Dior; Tom Ford, da Gucci, Marc Jacobs, da Louis Vuitton; e Alexander McQueen, da Givenchy.
“A hipótese que eu trabalhei era que ao reclamar um estado de artista para esses estilistas de moda, longe de se assinalar uma relativa Independência dos interesses e influências comerciais, se reafirmava esses interesses”, indica.
Indústria do luxo e arte contemporânea
No doutorado, a pesquisa aprofundou as nuances dessa relação entre a indústria da moda, luxo e arte contemporânea a partir do momento de consolidação das primeiras fundações, museus e coleções criados por milionários do setor e mantidos pelo capital privado, a partir dos anos 2005. Entre as instituições estudadas, estão a Fundação Louis Vuitton e a Coleção Pinault - Bourse du Commerce, em Paris.
O sociólogo lembra que não há “nada de novo nessa relação entre arte e moda. Os estilistas sempre se utilizaram da associação com a arte, seja consumindo, seja exibindo como uma forma de produzir uma distinção”.
Por isso, os consumidores compram objetos caríssimos, não pela utilidade que têm, mas pelo que representam e é uma maneira de “distinguir-se ante uma massa cada vez mais indiferenciada de sujeitos e produtos”. O pesquisador resume dizendo que “a raiz do interesse das indústrias que operam no mercado simbólico, como o luxo, pela arte contemporânea é a noção adquirida de que hoje há uma inseparabilidade entre consumo, cultura, estilo de vida”.
Essa relação, que pode ditar gostos, tendências e inflacionar o mercado de arte, tem um impacto positivo em um momento de globalização dos mercados, de uma retração dos investimentos públicos no setor cultural e a entrada maior de um capital privado do luxo.
“No momento em que, por exemplo, coleções públicas possuem muitas restrições orçamentárias, muitas vezes são esses grandes mecenas, esses grandes colecionadores, que ajudam, no final das contas, a concretizar certas visões, a concretizar certos projetos expositivos”, salienta.
Arte contemporânea brasileira e mundialização
“Para a venda: arte contemporânea brasileira e a mundialização” é o tema da atual etapa da pesquisa de Henrique Grimaldi. O trabalho é focado principalmente na Coleção Pinault - Bourse du Commerce, que pertence ao empresário e milionário francês do luxo François Pinault, mas também em estudos de caso da Fundação Louis Vuitton e da Fundação Cartier.
Henrique Grimaldi chama este recorte brasileiro da pesquisa “de um achado colateral”. Ele achou os artistas brasileiros quando começou “a mapear quais são os artistas, a traçar esses perfis colecionistas”.
Mas para responder quais são os “Brasis” presentes nessas coleções, o sociólogo faz uma comparação com duas coleções. A Fundação Cartier, que tem uma tradição antiga com a arte brasileira, tem um papel muito importante porque trouxe pela primeira vez para a França pessoas que nunca tinham saído do Brasil e que, ao entrar para sua coleção, “se tornaram artistas...
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Bloco ‘Ulalaô’ leva folia franco-brasileira ao Carnaval carioca
3/3/2025
Entre os vários blocos que desfilam no carnaval carioca, o “Ulalaô” anima a folia com sotaque e ritmo diferentes. O bloco celebra a fusão entre as culturas francesa e brasileira. Misturando batucada e valsa, funk e “chanson française”, a banda desfila nesta segunda-feira (3) pelas ruas da Urca, no Rio de Janeiro, arrastando milhares de foliões.
Tudo no bloco foi criado para fazer essa ponte cultural entre o Brasil e a França, a começar pelo nome “Ulalaô” que é a contração da expressão “oh là là” em francês com a famosa marchinha de carnaval “Ala lá ô, mais que calor ô, ô, ô”. “A gente estava atrás de um nome que representasse as duas culturas e ‘Ulalaô’ é um nome perfeito porque ele é curto e passa bem o que é o espírito do bloco”, diz o fundador Daniel Cariello.
“Ulalaô” foi criado em 2023 e desfilou pela primeira vez no ano passado na Urca, já com muito sucesso, conta o trompetista. “Em 5 meses a gente saiu do zero a um bloco completo, com um super repertório, com fantasias, com dança, com 40 músicos, 10 dançarinas e 2.000 pessoas desfilando. Foi uma coisa feita em tempo recorde e o resultado ficou muito interessante”, garante.
O bloco é fruto de 20 anos de pesquisa musical de Daniel Cariello, que é casado com uma francesa e recebeu o incentivo da mulher para botar o “Ulalaô” na rua. Todas as músicas apresentam versões e arranjos originais fazendo a fusão de músicas brasileiras e francesas.
“Em algumas músicas a gente consegue até fazer um arranjo conceitual. Por exemplo, a gente toca ‘Les copains d’abord', do Brassens, e a gente emenda com 'Minha Jangada vai sair pró mar’, do Caymmi. Então, falamos de uma música francesa em que os amigos entram em um barco e de repente estão no barco do Caymmi”, revela.
Outros exemplos que levam os foliões a dançar até valsa, cancã e charleston nas ruas cariocas são as “misturas” de ritmos entre Serge Gainsbourg e os tambores do Olodum, Wilson Simonal e a sensualidade de Brigitte Bardot.
“É maravilhoso e é bem interessante porque as pessoas não esperam que a gente toque esse repertório diferente, que foge do óbvio, foge das marchinhas tradicionais do Carnaval. As pessoas se emocionam, se surpreendem, ficam felizes, dançam juntas. É bem interessante a dinâmica do bloco”, relata.
Do Pão de Açucar à Torre Eiffel
Depois de um desfile de pré-Carnaval que animou as ruas de Santa Tereza em 20 de janeiro, “Ulalô” volta a trazer a folia franco-brasileira para as ruas da Urca nesta segunda-feira. O núcleo do bloco sai fantasiado com as tradicionais camisetas listradas francesas e boinas feitas de chita brasileira mas, como manda o espírito do Carnaval, o bloco é aberto a todos. “Atrás do Ulalaô só não vai ‘qui est déjà mort’”, brinca Daniel Cariello traduzindo a letra da música de Caetano Veloso. Os organizadores pedem apenas que os foliões usem cores francesas e brasileiras.
O desfile desta segunda sai do quadrado da Urca e termina na Praia Vermelha, cartão postal do Rio de Janeiro, reforçando a proposta do bloco. “O tema seria essa ligação entre o Pão de Açúcar e a Torre Eiffel, entre as duas cidades, os dois países que se admiram há 200 anos, desde que a Missão Artística Francesa veio para o Brasil, em 1816”, salienta.
Segundo ele, “a França chegou trazendo a polca e a valsa, que viraram choro, que depois viraram samba e depois viraram o samba-enredo. Então, a França, de certa maneira, está na raiz do Carnaval brasileiro”.
Para reforçar essa tese, Daniel Cariello ensina que “a primeira marchinha brasileira, ‘Zé Pereira’, é uma versão de uma música de bombeiros franceses, uma música marcial”. Depois do desfile neste Carnaval, o fundador do Ulalaô espera poder botar o seu bloco na rua também na França ainda este ano, integrando a programação da temporada cruzada entre os dois países.
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